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terça-feira, 13 de abril de 2010

Os efeitos visuais de "O Segredo Dos Seus Olhos"

No post anterior, usava o filme "O Segredo Dos Seus Olhos", do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de filme estrangeiro neste ano, para comparar as cinematografias de Brasil e Argentina. Mas pouco falei do filme em questão.


A verdade é que o filme vale pelo simples fato de ser um ótimo filme e por isso, fosse ele da Argentina, do Brunei, ou do Quirguistão, mereceria de qualquer forma o prêmio da Academia. O filme tem um ótimo roteiro, diálogos muito inteligentes, atores convincentes (e mesmo tendo o Darín em todos os filmes argentinos, acho que ele sempre consegue me convencer; neste até mais que em outros), ótima fotografia, planos interessantes e, é claro, um plano-sequência de cair o queixo.

Logo nos cinco primeiros minutos do filme, mostrando diferentes possibilidades de histórias a serem contadas, o diretor joga com diferentes texturas para mostrar uma história de amor (que mais parece comercial de margarina), uma despedida em uma estação de trem (com muito movimento, uma composição de planos que parece simular um sonho) ou uma cena de estupro (câmera na mão e muito movimento). Com isso, entra na história, que vai prendendo o espectador aos poucos, até o clímax final. Filme inteligente, com bom ritmo, despretencioso, que garante bons momentos cômicos e bons momentos de suspense e perseguição, sem nunca errar a mão. Vale lembrar que Juan José Campanella não só assina a direção como também o roteiro, a produção executiva e a montagem.

E como todo bom montador gosta de fazer, aqui temos um excelente plano-sequência, que quase chamou mais atenção que o próprio filme. Com duração de mais de 5 minutos, saímos de um plano aéreo de um estádio, vamos até o personagem principal e o acompanhamos em uma frenética perseguição, com muitas mudanças de ambiente. Abaixo coloco alguns vídeos que mostram como foram feitos os principais efeitos durante a pós-produção, principalmente para fazer este plano. Um efeito elaborado, usado anteriormente no filme "O Senhor dos Anéis" e usado pela primeira vez na Argentina, segundo eles.

E vale lembrar, para completar o post anterior, que esta foi a segunda indicação de Campanella ao prêmio de melhor filme estrangeiro, já que ele já havia disputado por "O Filho da Noiva", de 2001. E foi o segundo prêmio de filme estrangeiro do Oscar conquistado pela Argentina. O primeiro foi o tal "La Historia Oficial", de 1985, dirigido por Luis Puenzo.

Veja abaixo, os interessantes making-offs do filme, nessa sequência :(há muitos mais no Youtube. Aqui coloco os que achei mais interessantes ou relevantes)
1. Programa argentino (sem legendas) que mostra parte da cena, entrevista o diretor e outros envolvidos e ilustra parte dos efeitos usado no plano-sequência.
2. Rodrigo Tomasso, supervisor de efeitos, comenta sobre os efeitos usados no plano-sequência.
3. Um vídeo mais técnico, da produtora de efeitos, que mostra os diferentes layers 3D usados na primeira parte do plano-sequência. Muito interessante e ilustra o efeito magistralmente.
4. Aqui, eles mostram como foi feito outro ponto difícil do plano sequência, que é a queda do homem que é perseguido, quando a câmera sai de um andar e passa a acompanhar o homem no outro.
5. Por último, outro vídeo da produtora de efeitos especiais onde vemos a composição em 3D do plano do trem.
Aproveitem!









segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cinema argentino, Beckham, Pondé e Oscar.

O ex-professor Luiz Felipe Pondé fez uma comparação brilhante entre as cinematografias brasileira e argentina em sua coluna da Folha do dia 29 de março deste ano (clique aqui para ler a mesma matéria, publicada na íntegra em um blog). Em seu "desabafo", começa falando que foi "mais do que justo" o Oscar recente para "O Segredo dos Seus Olhos" e que "o cinema de 'los hermanos' é melhor que o nosso". Continua: "Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social."


No artigo, critica essa visão política que todo diretor estreante diz ter, como se cinema fosse instrumento de transformação social. No artigo, desmonta o culto ao Glauber Rocha, que tal como Caetano Veloso, parece -pela visão da crítica e também do público- que criou tudo que existe até hoje e que o futuro dependerá sempre desses caras. A verdade é que brasileiro mal vai ao cinema para ver seus próprios filmes, seja para ver mega-produções, novelas extendidas, histórias intelectuais ou o que quer que seja. Não temos indústria, não temos constância, mal temos público. E ainda assim, nos sentimos injustiçados por nunca ter conseguido um prêmio do Oscar.

Outro professor, Fernando de Felipe, de Barcelona, comentava sobre o Oscar que os irmãos Cohen ganharam por "Onde os Fracos Não Têm Vez / No Country for Old Men", em 2008, falando que o Oscar vem exatamente quando os envolvidos não precisam mais dele. Ou seja, em geral ele não premia o filme; premia mais a trajetória do diretor, ator, produtores e demais envolvidos, quando estes já demonstraram em muitas ocasiões que são dignos do cobiçado prêmio (e se falamos de Oscar e irmãos Cohen, o Oscar que Jeff Bridges levou este ano - e não por "O Grande Lebowski"- confirma essa teoria). Os Cohens já alcançaram um status que conseguem fazer o que bem entendem, com quem bem entendem, do jeito que acham mais adequado. O prêmio não faz com que eles consigam mais e melhores atores ou contratos, ou consigam produzir melhores filmes ou com mais orçamento. Isso poderia servir quando eles lançaram o ainda "independente" "Fargo" de 1997 (ganhou só o Oscar de roteiro original). O prêmio, hoje em dia, só confirma o que todos já sabem.

Dito isso, voltemos ao cinema brasileiro: como querer ganhar um prêmio de melhor filme estrangeiro e ter a nossa cinematografia "enfim" premiada, se não podemos dizer nem que temos a tal "cinematografia"? Produzimos um Walter Salles, um Fernando Meirelles, um José Padilha e achamos uma vez mais que cada um deles é "o" cara e que agora sim merecemos o prêmio. Mais ou menos como pensar que o Beckham ou o Cristiano Ronaldo podem vencer a Copa do Mundo para seus respectivos países, sozinhos. Mais importante que o prêmio de melhor filme estrangeiro do Oscar é certamente o Urso de Ouro de "Tropa de Elite" (2007), as indicações de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil" (1998) ou Daniel Rezende, por edição, César Charlone por fotografia, Bráulio Mantovani por roteiro e o próprio Meirelles por direção, com "Cidade de Deus", em 2004. Estes outros prêmios e indicações mostram que estamos no caminho certo e que temos ótimos profissionais, capazes de fazer ótimos filmes; e que uma hora chegaremos lá.

José Padilha e seu "urso".

A produção cinematográfica argentina é mais uniforme, mais identificável, mais "simpática" aos olhos americanos, mais lúdica, e principalmente, menos arrogante e mais divertida que a nossa. "Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções", diz Pondé. Até por acharmos que estamos fazendo justiça através do Cinema e que os nossos filmes falam a verdade e são extremamente importantes para o desenvolvimento do país, achamos que somos injustiçados pelo fato das outras pessoas também não verem esses fatores. Cinema deve ser antes de tudo divertido, deve falar ao maior número possível de pessoas (ao menos de vez em quando) e deve ser produto da realidade em que está, sem a pretenção de representá-la fielmente. Neste caso, me parece mil vezes mais interessante - e mais relevante para o país - o que faz, de forma divertida, Jorge Furtado (e "Saneamento Básico - o Filme" seria mais representativo neste ponto) do que faz muitos outros diretores, como Sergio Bianchi, que diz querer falar muitas verdades, mas acaba sendo muito panfletário e pouco adequado à linguagem do cinema (como no fraco e inconstante "Quanto Vale ou é por Quilo?" de 2005).

Temos que produzir mais e produzir melhor. Que venham muitas sequências de "Se eu Fosse Você" e "Tropa de Elite"; que o público passe a gostar de ir ao cinema para ver nossos filmes; que lancemos novos diretores (como o Esmir "Tapa na Pantera" Filho, que acaba de lançar seu primeiro longa no cinema); que a gente consiga contar mais histórias e histórias diferentes; ou filmes diferentes, que pensem também em "como" contar e não só em "que" contar. O prêmio certamente virá; e será decorrência de tudo isso.