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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Uma leitura do que há sob a pele de Sob a Pele, de Jonathan Glazer

AVISO: O texto abaixo contém spoilers. Muitos deles.


Uma mulher misteriosa e extremamente sedutora (e aqui estamos falando da Scarlett Johansson) dirige um carro por estradas e ruas da Escócia, procurando homens. Não qualquer homem: suas "presas" são pessoas da Albânia, da República Tcheca e de outros países do Leste Europeu. Imigrantes, portanto, mas que não se encontram isolados da sociedade em que se encontram: eles estão nas festas, no caminho do supermercado e nas torcidas de futebol. Após a abordagem casual, ela os leva até casas abandonadas e espaços obscuros, para os arrastar para dentro de um líquido preto, aprisionando e esvaziando sua essência.

Passados todos os imigrantes, o projeto de higienização atinge um jovem de 26 anos com deficiência física no rosto. A pessoa que mais leva tempo para sucumbir à sedução da bela mulher é também a primeira a escapar. Despido completamente e com todas as suas deficiências à mostra, volta para a cidade sem entender o que aconteceu.

Daí para a frente, esse ser que devorou tudo se vê obrigado a confrontar os seus próprios problemas de alimentação. O doce e belo não dá mais para engolir e o mundo limpo de coisas e pessoas diferentes parece artificial. É preciso interagir assim com o escocês padrão, que pega ônibus e mantém uma casa simples e desarumada numa periferia sem cor ou graça. O mundo limpo de diferenças é sujo e pobre, no final das contas. Com isso, o ser que devorava corpos é obrigado a olhar para o interior do seu próprio corpo (e não poderia ser feito de forma mais literal).

Resta então se isolar na floresta, essa metáfora recorrente de ambiente misterioso e infinito, que protege ao mesmo tempo que esconde, usada desde os contos de fada a outros filmes de igual abordagem, como é o caso de Lars Von Trier em seu Anticristo e Alex van Warmerdam em seu Borgman (que coleciona prêmios por onde passa e ainda permanece inédito por aqui).

Na floresta, essa mulher agora real e desesperada, encontra o mal verdadeiro que permaneceu o tempo inteiro sob a superfície (da qual se refere o título). A sociedade, no fim, culpa e elimina as diferenças para esconder suas próprias perversões, sempre muito maiores e mais presentes do que podemos imaginar. Nesse contexto violento e pesado, aparece a cor que está por dentro da própria pele, a verdadeira essência, e que pode ser entendida justamente como a de seu oposto.

Jonathan Glazer, que começou na direção dos videoclipes, como os melhores de sua geração, sabe que fazer cinema é buscar a harmonia entre aspectos textuais e visuais e é nesse ponto que Sob a Pele se destaca. Filme cheio de detalhes e com uma linguagem nova e interessante, começa documentário (e as pessoas que entram no carro são, em muitos casos, não atores, sem nem saber que se tratava de um filme); passa para o fantástico de visual complexo, mas feito em cima de poucos e expressivos elementos (as sequências do líquido preto são assustadoras e belas, em igual medida); e termina pura ficção, crua, fria, com silêncios e ruídos marcantes (e nesse ponto, especial atenção para a bela trilha de Mica Levi).

Scarlett Johansson, a mais bela atriz do momento também mostra que sabe escolher papéis como poucos. Depois de roubar a cena no Don Jon/Como Não Perder Essa Mulher de Gordon-Levitt (outro para ficar de olho), atua nesse durante o tempo inteiro do filme e praticamente sem falar, para, no filme seguinte, Ela, de Spike Jonze (um filme igualmente obrigatório), falar muito sem nunca aparecer.

Abaixo, três vídeos que ajudam a entender e mergulhar (o trocadilho é intencional) no universo criado pelo diretor. O primeiro mostra a construção da parte do documentário, com a van equipada para registrar o acaso nas abordagens com as pessoas. O segundo foca na interpretação da Scarlett. E o terceiro mostra as ideias por trás da bela trilha sonora composta para o filme. Aproveitem!





quinta-feira, 28 de março de 2013

O Som do Silêncio Hipster

Se “uma imagem vale mais que mil palavras”, já não sabemos. Mas que vale curtidas com coraçõezinhos e a provável popularização do autor nas redes sociais, é fato. Ou era. 

Até o fechamento deste post, trend mesmo é o “Vine”, aquele aplicativo que permite a gravação de pequenos videos com até seis segundos de duração. Imagem em movimento lembra alguma coisa? Pois é…


Juntando as duas vertentes, o Festival de Cinema Mudo de Toronto uniu os conceitos do Instagram e do Vine pra fazer algo antigo com uma cara totalmente nova. Confuso? Nem tanto. A divulgação do evento que ocorre entre 4 e 9 de abril, inovou ao lançar a seguinte proposta: Usar imagens do Instagram para produzir trailers mudos para o próprio festival no melhor estilo Flip-Book.
O resultado foi este:


Segundo o diretor criativo da agência canadense Cossette, que inventou a campanha, o interessante do projeto é usar a tecnologia do Instagram para promover filmes mudos, unindo dois universos, em tese, distintos. Para quem quiser mais, os perfis no “Insta” são estes: http://instagram.com/tsff_1; http://instagram.com/tsff_2 ; http://instagram.com/tsff_3.   

Independente do resultado final, um tanto “primário”, o que fica desta história é o estímulo do exercício de formatos, de montagem, e um resgate do cinema desde os primórdios. No fim tudo ainda se resume a frames, movimento e áudio ( mesmo que seja o silêncio). E quer saber o melhor? #TodosCurtem

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Corta-e-cola recomenda: Enter the Void (2009). Dir.: Gaspar Noé

Gaspar Noé é um diretor subestimado. Talvez por causa da famosa e longuíssima cena de estupro do filme Irreversível (protagonizada pela Monica Bellucci), o diretor passou a ser mal visto pelo público e por uma parte da crítica, como se quisesse apenas chocar sem ter uma mensagem para passar; e como se usasse os truques de edição por puro espetáculo, sem necessidade. Por causa disso, seu filme seguinte, Enter the Void, de 2009, obra (na minha opinião) a estar entre as maiores inovações e provocações do Cinema, nunca chegou às salas brasileiras e, desconfio, nem às locadoras ou lojas de DVD.


Gaspar Noé é o contrário de tudo isso e Enter the Void é um filme para ser visto e revisto, com bom áudio e de preferência em Blu-Ray. Ambientado no Japão e tendo o uso de drogas e a morte como temas principais, o filme traz um uso bastante diferente de movimentos de câmera (que o diretor já tinha provado em curtas e longas anteriores, incluindo o próprio Irreversível) mas, desta vez, esses adquirem poderosos efeitos narrativos. E a montagem, outra das muitas qualidades do diretor, joga brilhantemente com esses planos, criando momentos bem diferentes ao longo do filme.



O projeto nasceu, segundo o diretor, após ele ter visto drogado o filme A Dama do Lago, de 1947. Dirigido por Robert Montgomery, este é outra dessas experiências interessantes do cinema, já que é todo feito usando planos subjetivos (nos dois filmes conhecemos o personagem principal apenas através do espelho, feito com um plano trucado).



Os dois filmes (e o recurso) dialogam com o clipe de Smack My Bitch Up dos Prodigy, dirigido pelo também amigo da boa edição Jonas Akerlund, que tem em seu portfolio o filme com mais cortes da história (mais de 5 mil, segundo o Imdb): Spun - Sem Limites (do qual certamente falaremos em outra ocasião). Abaixo o clipe na versão sem sensura (mais coerente com o filme que é o assunto deste post).



Por último, se estamos citando referências e filmes relacionados, diria que Enter the Void é, provavelmente, junto com o Speed Racer dos irmãos Wachowski, o filme mais colorido da história (e daí o porquê de eu ter dito que funciona melhor em Blu-Ray). Nenhum outro além desses conseguiu capturar com tanta intensidade esse mundo ultra-tecnológico (do qual o Japão faz parte), com overdose de movimentos e luzes neon, já apontando para um mundo futurista bem bizarro (Blade Runner também recria a mesma coisa de forma brilhante, mas com tons bem mais sutis).



Ps. "Corta-e-cola recomenda" é um espaço que faremos, daqui por diante, com esses filmes que nos inspiram e que trazem inovações ou discussões que achamos relevantes. Se você tem alguma sugestão ou lembra também de algum filme que vá no mesmo sentido, por favor, mande para nós nos comentários abaixo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Como Impressionar o Cara que "Matou" Bill.

Ano passado, a RedBull lançou o seguinte desafio:  Encontrar artistas que apresentassem trabalhos originais em qualquer formato multimidia para impressionar, em até 3 minutos, ninguém mais, ninguém menos que…





















Além da visibilidade, o Django Unchained Emerging ArtistContest oferecia ao ganhador a chance de encontrar o próprio na Comic-Con 2012. O autor da façanha é o brasileiro (sim!!) Edson Oda: Um cineasta paulistano, residente em  Los Angeles que, inspirado por três dos “Western Spaguetti”  favoritos do diretor, “seduziu” Tarantino assim:


The Writer from Edson Oda on Vimeo.

Ao misturar técnicas como Origami, Kirigami, Time Lapse, Quadrinhos e um excelente roteiro (algo que nem a melhor das técnicas ensina), Fabio entrega um trabalho primoroso tanto na direção, quanto na edição e estebelece algo ainda mais difícil: inovação. Belo aquecimento para o filme que estreia hoje, não?


Django Trailer from Create on Vimeo.

O bonus track, que na verdade inspirou este post, fica por conta de “Malaria”, brilhante ideia inicial de Fabio para o concurso, que infelizmente, não ficou pronta a tempo. O duo que compõe este blog, gosta deste ainda mais. A decisão é sua.
Agradecimentos a Rafael Kenski (@rkenski) pela dica. 


Malaria from Edson Oda on Vimeo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Chaves para Hitchcock

Um homem sofisticado numa trama sinistra. Uma loira “gelada” inocente e diabólica. Um plot resolvido apenas no último segundo. Luz e sombra na fotografia. Trilha a la Bernard Herrmann, edição precisa, câmera-personagem, espectador cúmplice. A receita existe, mas se houvesse fórmula para um clássico de Hitchcock, os filmes do Brian de Palma ainda valeriam o ingresso. Não é o caso. 
Se desde sempre o nome do diretor inglês e o termo suspense são considerados sinônimos, em 2013, o dicionário ganha um novo termo: hype. Hitchcock está na moda, na tv, no cinema e provavelmente nas grandes premiações ao longo de 2013/2014. Até o momento temos, entre outras coisas, a produção com Anthony Hopkins e Helen Mirren que conta os bastidores  de “Psicose”, o lançamento do box “Alfred Hitchcock the Masterpiece Collection” com 15 obras-primas em formato Blue-Ray  e um filme da HBO, um tanto mal criticado, sobre sua relação obcessiva com Tippi Hedren. 


Mas em meio a todo o “buzz” surge uma notícia que muito interessa a este blog: é “The White Shadow” de 1924. Os rolos, perdidos por décadas e com autoria desconhecida até 2011, foram doados ao National Film Preservation Fund em 1989, e agora são disponibilizados (os 43 minutos encontrados, pelo menos), via streaming. A direção é creditada a Graham Cutts, mas quem aparece como assistente de direção, montador e cenógrafo é Alfred Hitchcock em, nada mais nada menos que, seu primeiro filme.
Pouco se sabia do roteiro, mas a história de uma irmã “má” que toma o lugar da “boa”, já apresenta alguns toques sutis de sua posterior narrativa: o clima da aristocracia, o jogo de aparências, o trabalho com os atores e a montagem nada monótona. Vale assistir, no mínimo, pelo registro histórico.
Se essa foi sua primeira incursão pelo cinema, termino o post com uma jóia bem mais recente realizada em 2007 por um fã que escreveu e dirigiu um curta (para a cava Freixenet) que mostra o encontro e a execução de um roteiro supostamente perdido pelo mestre… Usando e abusando dos recursos eternizados por Sir Hitchcock, “Key to Reserva” é simplesmente genial. O fã? Um tal Martin Scorsese.
PS: À procura de outras chaves para o universo do mestre? Algumas das melhores estão aqui.           
Enjoy!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O melhor dos video-games com o melhor do cinema

Muito em breve (4 de Janeiro, para ser mais exato) estreia nos cinemas a animação Detona Ralph, da Disney/Pixar, com direção de Rich Moore e voz de John C. Reilly no papel principal (o Ralph em questão). É a segunda obra da Disney que usa um simples jogo de video-game como ponto-de-partida para uma história mais complexa (narrativamente e graficamente); a primeira foi Tron. Desta vez os jogos clássicos dos consoles acabam também virando personagens e o resultado tende mais à comédia e à diversão.



O namoro entre video-games e cinema não para só aí. Recentemente vimos dois dos maiores nomes do cinema (e gênios na arte da montagem, devo acrescentar) assinarem publicidades de dois jogos, em bons exercícios de linguagem. O primeiro caso é dirigido por Guy Ritchie (de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Snatch e outras tantas maravilhas) e o jogo em questão é o Call of Duty: Black Ops 2, que será lançado na semana que vem. (Atores como Galifianakis e Downey Jr. também fazem suas participações especiais).



Já David Fincher (de Clube da Luta e A Rede Social -que ganhou oscar de edição, se você bem se lembra) e Tim Miller (responsável pelos geniais efeitos do Scott Pilgrim) trazem até você o trailer do novo jogo da franquia Halo, que promete mais uma vez reinventar o mundo dos video-games. Enquanto o filme não chega (e a novela de quem seria o diretor e quando diachos ficaria pronto não acaba), nada como um vídeo (e um jogo desses) para acalmar os ânimos dos fãs da saga. Aproveite.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A montagem de Tropicália (ou: a arte de valorizar materias de arquivo)

Estreia hoje o documentário Tropicália, de Marcelo Machado. Documentário que funciona como registro histórico do que aconteceu culturalmente no Brasil entre 1967 e 1972 e tem como figuras centrais Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes (principalmente).



Mas o filme, como você pôde ver no trailer acima, vai muito além disso. Abarcando coisas relacionadas ao "movimento" que aconteceram simultaneamente no cinema, nas artes plásticas, no teatro e na vida política e social do país, ele faz um registro muito mais abrangente (e por causa disso, mais interessante). E para dar essa "cola" (usando aqui a expressão do mutante Sérgio Dias, que já aparece no trailer) há um criativo e muito bem aplicado uso da Montagem. 

Não só o ritmo do filme é bastante eficiente (as músicas se destacam e estão presentes em todo o filme mas não brigam com o texto nem se alongam demais) como há uma interessante mistura de linguagens e técnicas ao longo de todo o documentário. Assinada por Oswaldo Santana (que também montou o filme Bruna Surfistinha), a montagem acaba deixando quase sempre a fala dos entrevistados em BG, ilustrando o texto com composições e manipulações de capas de álbuns, fotos de arquivo e vídeos de formatos diferentes como tv, cinema, super-8, etc. 

Não só eles tiveram acesso a um material muito rico como souberam usar e manipular muito bem. O filme é no final extremamente colorido, mesmo usando quase que somente material em P&B, original da época. No arsenal de efeitos há rabiscos por cima de fotos, composições com capas dos discos (destacando detalhes da imagem), roupas e elementos pintados, que buscam retratar como eram os objetos originalmente, etc.



Outro acerto da parte da pós-produção é a animação simples e extremamente funcional do logo do filme. Inspirado na obra "Bichos" de Lygia Clarck (acima) -artista que também influenciou o movimento tropicalista- eles usam sólidos geométricos que se movimentam para formar o nome do filme e as datas dos acontecimentos.




Fica, assim, a dica para vocês assistirem esse que certamente será um dos melhores usos da montagem que você terá acesso esse ano, seja no cinema nacional ou internacional. Independente de gostar ou não da música a que o filme se refere, o filme vale para qualquer interessado por cinema e história.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Buraka Som Sistema, truques de montagem e BaBaBaBaBaBaBaBa.

so.. everytime we say Hangover.. some asshole reply's something about the movie? #fuckhangover2#it'snotevenfunny

A frase acima é do twitter dos Buraka Som Sistema, representantes máximo do kuduro português que acabam de lançar um videoclipe para a música Hangover (BaBaBa) (certamente melhor que o filme de mesmo nome que chega aos cinemas brasileiros em sua segunda parte). Confiram.



Não é genial que quase todos os takes estejam manipulados de alguma forma? Truques simples de edição, principalmente na cor e na manipulação da velocidade, que criam um ritmo interessante (coerentes ao ritmo da música) em cima de takes bem simples e próximos ao universo da banda (parece que o videoclipe foi gravado em Angola, de onde eles tiraram a inspiração; e o BaBaBa do refrão). Valeria destacar só por aquele bonito take do mergulho na favela do início (o efeito mais elaborado do videoclipe, talvez, e ainda assim de fácil realização).

Para saber mais sobre o método de composição da banda, conhecer o Buda da Bigodaça e até ver um rápido take da participação do sepultura Igor Cavalera na gravação do álbum, confiram o vídeo abaixo. (Esse já não é tão bem editado e nem muito interessante, mas tem o Buda da Bigodaça, o que mais vocês precisam?)



Ps. Se você ainda assim quiser saber mais sobre a música, recomendo a "interessante" entrevista que o MC Nakobeta, responsável pelo refrão da música, deu em uma rádio angolana. "ENTREVISTADOR: MC Kakobeta, tens algo a dizer?" "MC NAKOBETA: BaBaBaBaBaBA"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cannes, A Árvore da Vida, montadores e Daniel Rezende


O vencedor da Palma de Ouro em Cannes esse ano foi A Árvore da Vida, último filme de Terrence Malick. O filme americano conta com as participações de Brad Pitt e Sean Penn e é descrito como um drama com elementos surreais e influência da ficção científica (o que pelo visto poderia ser também dito do Melancolia do Lars Von Trier, filme que mais chamou atenção nesta edição do Festival - graças a polêmicas declarações do diretor - e rendeu prêmio de melhor atriz a Kirsten "Mary Jane" Dunst). Confira o trailer do filme abaixo (o de Melancolia você já viu aqui).



O que me chamou atenção em relação ao filme vencedor (e é especialmente importante para este blog) são os nomes que assinam a montagem do filme. São cinco pessoas no total (não consegui descobrir qual o papel de cada um deles): um tal Mark Yoshikawa; Billy Weber, montador de clássicos dos anos 80 como Top Gun e Um Tira da Pesada, e do Além da Linha Vermelha, também do Malick; Hank Corwin, montador do excelente (e obrigatório no tema) Assassinos por Natureza - é curiosamente o primeiro filme que ele montou; Jay Rabinowitz, montador de filmes importantes de dois dos maiores diretores atuais: Jim Jarmusch e Aronofsky - ele montou o mais obrigatório ainda no tema Réquiem para um Sonho; e por último (e mais importante) Daniel Rezende, o mais importante montador brasileiro do momento, que já foi indicado por Cidade de Deus ao Oscar e montou os Tropas de Elite, Diários de Motocicleta e uns tantos outros.

Uma das melhores seleções de montadores de todos os tempos e mais um destaque para Daniel Rezende, nome importante de nossa cinematografia. Rezende também já fez sua incursão à direção com o curta Blackout, que ele mesmo disponibilizou no Vimeo. Curta interessante que conta com a participação de Wagner "Capitão Nascimento" Moura e do diretor de fotografia César Charlone (que também atua). Confiram o curta abaixo na íntegra.



[spoiler] Como todo bom curta de montador estão aí as telas em preto, os planos-sequência e alguns elementos gráficos (os ponteiros do relógio) para dar graça à história. Ágil, atual e bem interessante, não acham?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os geniais efeitos visuais de Cisne Negro (contém spoilers, já aviso)

Você não se perguntou durante o Cisne Negro onde infernos estariam as câmeras (e todo mundo que trabalha ao lado dela) naqueles muitos planos no salão de ensaio, cheio de espelhos? Ou não se perguntou se era mesmo a Natalie Portman que dançava aquilo tudo? Ou mesmo, como eles faziam todos aqueles efeitos da "transformação", que conseguiam ser ao mesmo tempo artísticos e realistas?

Pois aí está um belo vídeo de making of para nos ajudar.



O legal do vídeo é que mostra o truque cinematográfico ao mesmo tempo que mostra como a mensagem foi ampliada por essas muitas camadas feitas em pós-produção (como no caso do belíssimo plano da tatuagem de asa, por exemplo). Como falado no post anterior sobre a série In Treatment, esse tipo de coisa (como imaginar onde estaria a câmera em muitos planos, por exemplo) pode não ser imaginado ou mesmo cogitado por um espectador comum, mas serve para ampliar a reflexão sobre as imagens e gerar novas possibilidades narrativas. Ainda mais no caso do Cisne Negro, em que a história da bailarina e a interação com o instrutor de ballet (vivido pelo genial Vincent Cassel) apontam claramente para a relação da atriz com a personagem (que em alguns casos pode consumir demais a pessoa que interpreta, que começa a confundir os "papéis" - como no caso Heath Ledger/Coringa, imagino); e na relação própria entre a atriz e o diretor, que às vezes joga com o psicológico da atriz para alcançar o resultado desejado.

A pós-produção e montagem ajudaram no caso do filme a expandir essas possibilidades, jogando novas "camadas" de profundidade em uma já profunda história.

Ps. pros que se interessarem em ampliar o conhecimento sobre o filme, recomendo ver no Youtube uma longa entrevista (de quase UMA HORA de duração) com o diretor de fotografia Matthew Libatique, o montador Andrew Weisblum e o diretor, Darren Aronofsky, falando de forma quase informal sobre os diferentes aspectos do filme (clique aqui se quiser ver). Há outra com Natalie Portman, de pouco mais de meia hora que é também bem interessante (ela responde a pergunta "Você chegou a discutir com o Aronofsky se você realmente morre no filme?", já aviso) - para ver, clique aqui.

Ps2. Também falei do Cisne Negro em outro post, mas rapidamente, comentando os indicados ao prêmio de montagem do Oscar.
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Atualizado em 29/03:
Uma ressalva: o vídeo que você vê acima não é o mesmo que eu tinha postado originalmente. O vídeo que eu tinha colocado acabou sendo tirado do ar e as únicas opções encontradas na Internet hoje em dia são vídeos oficiais da Fox. Há uma explicação para isso: enquanto Benjamin Millepie, marido de Natalie Potman e bailarino no filme, diz que a participação dela foi de pelo menos 85% nas cenas de dança, Sarah Lane, a dublê de corpo, fala que é algo como 5% (essas declarações vieram depois da premiação do Oscar, obviamente). No vídeo original dava para ver a troca do rosto de uma pela outra em pós-produção (daí porque eu falo no início, inclusive, sobre ela dançar ou não aquilo tudo). O vídeo atual continua interessante, mas substitui as cenas de dança por outras cenas com os jogos de espelho, em que se mostra o terror da personagem (efeitos para mostrar o irreal, o psicológico) mas não a dança e outros planos mais simples (aqui reais, em teoria). Aqui há mais informações sobre o caso, para quem quiser (em inglês).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando o roteiro, a direção e a montagem são executados com maestria. (ou: as idéias por trás da primeira temporada de In Treatment)


Me deram alta. Hoje finalmente acabei de ver a primeira temporada da série In Treatment (aqui Em Terapia), produção da HBO (atualmente em cartaz em sua terceira temporada). Se você não conhece eis aqui uma rápida publicidade desta primeira temporada da série:



E se você não sabia, a série é uma adaptação de uma produção israelense feita três anos antes com basicamente os mesmos personagens e conflitos desta primeira temporada americana. Aqui a apresentação (mais detalhada que a anterior) da série original:



Algumas idéias que me fizeram ficar viciado na série:
1. O formato é genial. Episódios curtos, de menos de 30 minutos, que vão ao ar de segunda a sexta, cada um deles com o paciente do dia (o de sexta é para supervisão, ou seja, ele é o paciente). Isso não só é um fator viciante como dá um dinamismo bem grande à série; muitas vezes você se pega querendo pular uma semana para descobrir logo o que acontece com o personagem (o que eu na verdade não recomendo).

2. Há ali todo tipo de conflito: amoroso, profissional, familiar, etc. Cada hora você acha que tem mais a ver com um paciente (e um tipo de conflito) e isso costuma variar bastante ao longo da temporada.

3. O roteiro é primoroso. Diálogos objetivos, que conseguem prender e instigar o espectador ao mesmo tempo que garantem bom ritmo e soam naturais em quase todo o tempo (pelo menos para mim), tendo bom desenvolvimento ao longo da temporada.

4. Ao ver o filme Inception/A Origem, de Christopher Nolan, me perguntei se aquilo não poderia ser mais denso e mais perturbador (sendo também mais efetivo), entrando mais na cabeça (aqui também literalmente) dos protagonistas e expondo os conflitos, sem tantas explosões e tiros para tudo que é lado. Algo que seria no final das contas mais complexo e feito, possivelmente, de forma mais barata, já que você não cria tantas situações mirabolantes. Seria algo como o eXistenZ do Cronenberg, só que não tão viajado ou bizarro.

Pois bem, o In Treatment entra nessa categoria. Por que não gastar a meia hora do episódio focando apenas na interação entre as duas pessoas, em um ambiente fixo, sem maiores ações, flashbacks ou representações fictícias do que está sendo falado? Essa era a proposta da série e me parece extremamente efetiva. É dado ao espectador o poder da imaginação (assim como trabalha o psicanalista diariamente) e essa é a graça da coisa.

5. (e aqui chegamos ao tema central deste blog) A série é um ótimo exercício de direção e principalmente, de montagem. Ao trabalhar basicamente com diálogos, um único ambiente, sem maiores apoios cenográficos, com apenas dois atores, sentados, falando por meia hora, é preciso representar os movimentos que, em um processo psicanalítico, representam coisas -falam tanto quanto o diálogo- além de dar bom ritmo e prender o espectador.

Há dois pontos que me parecem especialmente representativos dessa idéia e que ilustram possivelmente as duas coisas mais complicadas do trabalho de montagem:

a. Ação/reação. Um exemplo claro disso tínhamos também nos filmes (também só de diálogos) Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol, dirigidos por Richard Linklater. Ao colocar duas pessoas também conversando durante toda a duração do filme, eles tinham que, a todo tempo, mostrar a pessoa que fala (e que sugere algo) e a que que reage (aceitando ou rechaçando algo). Mais que isso, eles tinham que representar em gestos o que não é dito: um olhar que provoca; um não que quer dizer sim; uma levantada de sobrancelha desconfiada. E aí está boa parte do trabalho do montador, sabendo quando mostrar a ação e quando sugerir a reação, durante um diálogo, optando cada hora por um plano diferente. A mesma preocupação existe na série.

b. Quebra de eixo/direção do olhar. Eis uma das coisas mais dificilmente explicadas em aulas de direção e que o montador tem que estar a toda hora atento durante o processo. Ao inverter o eixo da câmera, colocando ela numa posição oposta ao sentido em que estava (em relação à ação), mudam-se as direções de olhar e sentido da ação, confundindo o espectador. O que em geral se atém para não parecer um erro, na série é usado com sentido narrativo. Ao trocar de uma hora para outra o eixo da câmera, passando para o outro lado da ação (do ombro esquerdo para o direito do analista, por exemplo), os olhares dos personagens trocam de direção, fazendo com que estes assumam posturas diferentes. O que antes estava em uma posição de defesa (e olhava para a esquerda da tela em boa parte das vezes) passa a assumir posição de ataque, olhando para o lado oposto. É um fator desconhecido para boa parte do público (que não percebe como tal) mas que certamente acaba influenciado por este tipo de linguagem (ou ao menos temos a tendência a pensar que sim). Dá de qualquer forma uma intenção para cada plano (e aqui valoriza o trabalho do diretor), além de um ritmo e uma dinâmica muito interessante (e o do montador também). Fica muito mais legal analisar o diálogo quando você está ciente dessas coisas; e pode interpretar que papel cada personagem está desempenhando nos diferentes momentos da série.

Tá dada a dica. (se quiser, clique aqui para ver em streaming o primeiro episódio - e ficar viciado para sempre).

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Everything is a remix. (ou: expondo e discutindo a manjada indústria cinematográfica)

Nada se cria. Tudo se copia. Segundo Kirby Ferguson, nos dias de hoje, everything is a remix.

Em cima deste conceito, o americano está criando uma série de vídeos (2 até o momento) que mostra como a indústria cultural, principalmente música (no primeiro vídeo) e cinema (no segundo), não consegue não se apropriar do já existente para criar novos produtos (como um terrível vício). A tese é logicamente mais antiga que esses caras e está sendo hoje em dia muito expandida dentro dos meios acadêmicos. Rick Altman no seu importante livro Os gêneros cinematográficos (2000) falava que este vício vem da necessidade da indústria de estar sempre criando franquias para fidelizar o público (gerando assim mais dinheiro) e o francês Nicolas Borriaud em seu Pós-produção (2007 - falei mais sobre ele aqui) discutia como hoje é mais legal justamente se apropriar do já feito para gerar novos produtos (aqui na verdade ia para o lado da apropriação e alteração em montagem, um uso mais artístico e consequentemente, mais valioso).


Mas nenhum dos acadêmicos fez um vídeo tão interessante e bem editado como fez o senhor Ferguson (o figura acima), que ainda por cima ilustra claramente como a indústria cinematográfica é repetitiva, girando sempre sobre os mesmos temas e conceitos (inclusive visualmente). Cinema é indústria e, para isso, deve render dinheiro (o formato disto foi inclusive brilhantemente atacado recentemente pelo mestre Coppola - ver aqui). E para render dinheiro, nada como jogar em terreno seguro, na melhor lógica de não se mexe em time que está ganhando (se está realmente ganhando nos dias de hoje é outro ponto a se discutir).

Vejam o vídeo abaixo. É o segundo da série. E aqui fala só sobre cinema.



Ilustrando também o conceito e focando sobre o exemplo do Kill Bill (mencionado no final do exemplo acima), o editor Rob Wilson fez outro vídeo (em parceria com Ferguson, inclusive) que mostra todas as milhares de referências usadas por Tarantino para compor o que poderia ser a obra-prima do remixing. Tarantino é o rei do copy/paste e é o melhor a se apropriar de signos antigos para criar alguma coisa ao mesmo tempo pop/vendável e inovador/vanguardista. Por isso mesmo tem milhões de teses por aí usando o figura para ilustrar conceitos do pós-modernismo. Se todo mundo copia tudo descaradamente, achando que está criando algo inovador, aqui a graça está justamente em expor essas referências e jogar com elas. É o mashup no lugar do remix.

Divirtam-se com o vídeo abaixo.



Os dois vídeos ajudam a jogar nova luz nos estudos acadêmicos e a expor de forma fácil e divertida as manjadas fórmulas da indústria cinematográfica, que explora demais os plots, as estruturas de roteiro, os mesmos personagens e situações, as mesmas fontes e referências. Algo muito bom e positivo deve vir de isso tudo no futuro. Como diria Lars Von Trier, "se você pensar que a história da arte começou quando um homem rabiscou a caverna e comparar com os cem anos da história do cinema, podemos pensar que agora mal sabemos como desenhar um bisão".

Ps. para seguir o projeto do Everything is a remix, fique ligado no twitter dos dois (@remixeverything e @robgwilson) e nos blogs pessoais (http://www.everythingisaremix.info/ e http://robgwilson.com/). As novidades e os próximos vídeos virão por aí.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Editando com vários softwares (ou possibilidades)

O mais legal da montagem para cinema atualmente ser feita por computadores é que, ao contrário da moviola, podemos agora integrar facilmente diferentes tipos de formatos (de fitas VHS a películas 35mm) e também de mídias - um gráfico, um texto, uma imagem... Basta para isso ter histórias que comportem este tipo de linguagem (que aparece na publicidade, nos videoclips e vídeos da internet, mas dificilmente chega aos cinemas).

A melhor ilustração para esse jogo com formatos e possibilidades vem desta campanha recém lançada pela Intel, que joga narrativamente com o cruzamento de usos de softwares, aplicativos e páginas da Internet, para demonstrar a capacidade dos processadores (e a interação com todas essas mídias que cada vez estamos mais acostumados).


Outro que vai na mesma linha é um stop-motion feito através do google docs, que mostra também como não precisamos de dinheiro e muitos aparatos para fazer algo legal (além de mostrar como apresentações estilo ppt são -em quase todos os casos- toscas, tediosas e mal-feitas). Mais infos no Motionographer.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Walking Dead e Criss Angel (sobre zumbis e mulheres mutiladas; truques e truques cinematográficos)


Ontem vi o primeiro episódio de Walking Dead. Certamente os fãs do gênero devem achar ele meio novelinha, muito blablaba entre uma explosão de cabeça e um zumbi mutilado. Eu achei bem bacana. É mais um a provar que, pelo menos em se tratando de roteiros, o legal está mesmo na TV a cabo americana. É uma boa aposta no final das contas. Bem executado, bem escrito, com planos bem bacanas, efeitos e maquiagem impecáveis. E aqui está o principal (que pode explicar de certa forma o blablabla do roteiro): o zumbi em si, a cabeça mutilada e a pessoa sem perna, por si só, já não impressionam muito mais (ainda que no caso da série garanta bons momentos). Se antes o legal era pensar "como esses caras fazem isso", agora já tem milhões de vídeos na internet e programas de TV que mostram o making of dos inúmeros filmes de zumbis. As passeatas de mortos-vivos que têm por aí (e teve uma recentemente em São Paulo, a da foto abaixo), já estão se bobear mais profissas que muitos filmes de baixo orçamento. Então a idéia é dar uma nova cara ao gênero. Tentar torná-lo verossímil de novo. E o roteiro é parte essencial disso.


Mas falando em efeitos, truques e aspectos relacionadas à pós-produção, acho legal eles não esconderem no material extra de divulgação como as coisas são feitas (e nem transformarem isso em show, também). Veja o vídeo abaixo por exemplo, onde vemos Robert Kirkman, criador da HQ que deu origem à série e agora produtor executivo, falar sobre o assunto ao mesmo tempo em que vemos o zumbi mutilado (o primeiro que o personagem principal vê ao sair do hospital), com tecido azul ao redor das pernas para posterior recorte do chroma.



Este zumbi mutilado serve também para ilustrar outro ponto desta discussão entre o que desconhecíamos antes e agora já conhecemos de sobra. Em uma aula, o diretor de arte espanhol Andrés Hispano usava a história da mágica para ilustrar a mudança da visão das pessoas sobre os efeitos. Dizia ele que antes nos surpreendíamos com mágicos de shows grandiosos, como David Copperfield. Este fazia um show para se ver ao vivo e o povo caía totalmente nos truques do ilusionista. Dali passamos para o David Blaine (vou pular o Mister M, desculpa), mágico minimalista que dominava a linguagem da televisão e fazia truques muito simples (quase idiotas) parecerem muito mais autênticos que os do anterior. E por último teríamos o Criss Angel, mágico que nasceu no Youtube, com truques impressionantes em vídeos de péssima qualidade (difícil para ele foi convencer os outros que a Paris Hilton tava mesmo dando bola quando tirou a foto).


Andrés usava essa mudança para falar como o público liga hoje em dia muito mais para o conteúdo do que para a definição propriamente dita (até por termos agora câmeras simples e televisões "baratas" em HD). Como exemplo, comentava que o surgimento do Dogma-95 no mesmo ano em que vazou o polêmico vídeo da Pamela Anderson com o Tommy Lee não era coincidência; os dois apontavam para esta idéia de menos definição e mais conteúdo (no caso da Pamela, que conteúdo!). E neste processo, se antes duvidávamos da produção do Copperfield, agora caímos na do Criss Angel sem contestar muito; a graça está em cair no truque afinal de contas. Mesmo ele fazendo uns truques bem safados através de pura manipulação em edição (+ atores contratados). Os truques dele viram qualquer porcaria se você passar a pensar que ele está sempre mudando coisas que você não vê entre um corte e outro (e desculpa Criss, mas o Buster Keaton já fazia isso bem melhor que você quase um século atrás). O vídeo abaixo, que ele parte uma mulher ao meio, já é um clássico (e aqui, finalmente, a ligação com o outro zumbi, do Walking Dead).



Em tempo: se quiser saber qual é o truque da mágica acima, e que tem relação com edição, como falei, é só clicar aqui. Fácil e rápido, como a internet sempre possibilita.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

People Change (enfim, em um Vimeo perto de você)


Mais ou menos um ano atrás eu concluía um curta-metragem (o meu primeiro), feito de forma extremamente barata (no campo "orçamento" do formulário de inscrição de alguns festivais eu coloquei algo como 5 euros, o preço de uma fita mini-dv), que servia inicialmente para ilustrar umas tantas idéias da minha tese de mestrado, que tinha como tema inovações em montagem no Cinema. O curta contou com a colaboração de alguns amigos e foi feito ao longo de uns seis meses em frente ao After Effects, nos meus meses finais em Barcelona. Ele tenta ilustrar algumas das tantas coisas que um montador pode fazer com os softwares de edição disponíveis, afim de ganhar sentido narrativo (as idéias por trás dele eu falei melhor aqui).

Neste ano ele rodou quatro festivais: a Mostra do Filme Livre e o Cinesul - Festival Latino-americano de Cinema e Vídeo, que acontecem no Rio de Janeiro; o Festival Locomotiva de Animação, que acontece em Garibaldi, no Rio Grande do Sul; e a VI Mostra Internacional de Curtas da Unioeste, Universidade de Toledo-PR (falei mais sobre dois deles aqui).

O resultado você pode conferir abaixo. Espero que goste.

People Change from Ricardo Kenski on Vimeo.


Fica aqui novamente meu agradecimento a todos que me ajudaram a realizá-lo. E aos festivais que acreditaram na idéia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

The Octopus Project

Mais um da série "como fazer um videoclipe legal e extremamente barato". Dessa vez com a divertida The Octopus Project (a da foto abaixo), banda americana que já ganhou inclusive o título de Best Experimental Band do SXSW, importante festival indie de música e vídeo. A música se chama Truck e o clipe é dirigido pelos tais Zellman Bros.


Videoclipe criativo que nasce na sala de edição através da composição entre um material meio genérico (e poderíamos até dizer mal captado) e desenhos simples. Parece inclusive que a composição surgiu de um problema: disfarçar as pessoas que aparecem em primeiro plano, para não ter que pedir a autorização pelo uso da imagem. Por mais simples (ou funcional) que seja, o efeito deu uma cara interessante ao vídeo. Confiram o resultado abaixo.

TRUCK - The Octopus Project from Zellner Bros. on Vimeo.

Em outros dois posts falei de casos semelhantes de composições feitas na edição - clique aqui para vê-los. É sempre um exercício divertido no final das contas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

RIP Sally Menke


Morreu hoje, aos 56 anos, e de forma trágica, uma das maiores montadoras do cinema de todos os tempos, a Sally Menke. Ficou famosa por montar todos os filmes do Tarantino, dos quais recebeu duas indicações ao Oscar (por Pulp Fiction e Bastardos Inglórios). O meu favorito dela é certamente Death Proof, uma verdadeira aula de montagem. Ali vemos o uso de muitos filtros diferentes, efeitos, cortes errados propositalmente, um ritmo excelente nas diferentes partes, ótimas cenas de ação, tudo orquestrado de forma magistral - e feito em quatro semanas e meia, como nos diz Tarantino em um dos vídeos abaixo. É das que consegue usar a montagem para conduzir perfeitamente a história (de forma invisível) e também, como neste caso, potencializá-las através dos recursos disponíveis, assumindo sentido narrativo (aqui visível). A montagem vira neste caso um personagem a mais do filme e é responsável pelo visual genialmente diferente que vemos ali. Boa parte do sucesso e da graça dos filmes do Tarantino se deve a ela. Tanto que é considerada o braço direito do diretor. E pelos exemplos abaixo, em vídeo, vemos que mesmo estando numa salinha escura a kms de distância do set, ela era lembrada por todos os membros da equipe, em diferentes situações. Os "Hi Sallys", brincadeira que Tarantino fazia com a montadora durante a filmagem, é divertidíssimo e serve para mostrar a sua importância.



Vale também ler o texto escrito por ela para o portal do Guardian (clique aqui), em que comenta a sua trajetória, o trabalho com Tarantino e a admiração pelo trabalho de outra montadora notável, Thelma Schoonmaker, que trabalha desde sempre com Scorsese e que, com 14 anos a mais que ela, continua na ativa em ótimo processo criativo.

R.I.P. Sally Menke.
Bye Sally.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Origem (e a origem) de Christopher Nolan

Vá se preparando para um dos filmes do ano, que estréia nesta sexta-feira (ao menos em São Paulo). É o novo experimento de Christopher Nolan, o diretor inglês que já te deixou perturbado com Amnésia e Insônia e te divertiu um bocado com os dois últimos filmes do Batman.


O filme em questão se chama A Origem (Inception, no original) e conta com Leonardo DiCaprio (fazendo outro policial num mundo fantástico, como em A Ilha do Medo, que comentamos aqui), o casal amigo das boas comédias românticas: Ellen Page (do Juno) e Joseph Gordon-Levitt (de 500 dias com ela) e Michael Caine, um dos prediletos do diretor. E tem esse trailer animal aqui, que te deixa realmente com uma bela de uma expectativa:



E já que falamos do A Origem, de Chrisopher Nolan, me parece interessante também falar da origem de Christopher Nolan, ou melhor, de um dos primeiros filmes que o diretor fez (e que o ajudou a se lançar no mercado cinematográfico). Se chama Doodlebug (1997) e já foi lançado numa das edições de curtas europeus do bacana Cinema 16. Poderíamos interpretar como um típico exercício de escolas de cinema: foi feito em 16mm, uma única locação, um só ator, em preto-e-branco, sem diálogos. Ainda assim, o exercício ficou bem interessante e já mostra um pouco o universo em que viria a trabalhar futuramente o diretor: drama psicológico com influência de sonhos e alucinações, que nesse caso fica bastante surreal. Interessante também saber que no curta ele trabalhou como diretor, roteirista, câmera e também editor. Confiram o resultado abaixo.



Santa expectativa para o novo filme, Batman!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fazendo música com filmes

Já pensou em editar as falas de um filme para compor uma música? É o que faz o australiano chamado Pogo (não confundir com o estúdio brasileiro de finalização que tem o mesmo nome). Usando longas famosos como base (em gerais de animação), ele cria videoclips com melodias bem curiosas e edições bastante interessantes. O figura é esse aí abaixo.


Essa brincadeira deu certo. O canal dele do Youtube já teve mais de um milhão de exibições e ele já foi convidado a fazer versões musicais para empresas (como publicidade) e de filmes, como o recente Up - Altas aventuras.

Para começar, conheça a música que ele fez usando como base a animação de Alice no país das maravilhas, da Disney, certamente um dos seus vídeos (e músicas) mais famosos.



Um que gosto bastante é a música que ele fez usando o filme O Exterminador do Futuro 2. Não só a edição é bem bacana aqui, como diz ele que todos os sons existentes na música vieram do próprio filme.



Por último, fiquem com Gardyn, primeira música feita por ele com sons reais (que ele mesmo gravou). Um simples documentário, de como a própria mãe gosta de cuidar do jardim acabou virando um videoclip interessante, com boa manipulação de música e vídeo.



Assim ele descreve na sua página a experiência de fazer o videoclip:
"Filming and mixing my mother’s garden was a great experience. Mixing films will always be a passion of mine, but it’s certainly exciting to imagine running around the world with a camera, microphone and laptop. Now whenever I hear sounds and voices around me, my brain starts ticking!". (Para saber mais das idéias dele por trás dos vídeos, clique aqui).

Que venham outros!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os efeitos de "Homem de Ferro 2" (e o problema das continuações)

Lançar o "Volume 2" não é um problema apenas para o She & Him, o MGMT e o Vampire Weekend neste 2010. Tentar manter o que os fizeram famosos, conseguindo inovar minimamente e tendo sacadas novas é também o problema por trás do Homem de Ferro 2, atualmente em cartaz (ao menos ainda em São Paulo). Como na música, o primeiro de qualquer série cria o conceito e apresenta algo naturalmente inovador (mesmo o herói sendo conhecido nos comics), tendo bastante liberdade para isso. O segundo já vem com uma boa dose de expectativa - auxiliada pela ação gigantesca de marketing, no caso do filme. Expectativas que não se confirma em nenhum dos casos; no do super-herói, ao optar-se pelo drama pessoal que passa o personagem em detrimento da ação, perde-se também alguma espontaneidade e ironia, que acarreta também em problemas de ritmo, ficando arrastado em muitas horas. É na verdade um filme de ligação para outros tantos filmes que a Marvel lançará nos próximos anos; escondendo alguns ícones, indica os filmes do Capitão América, Thor e Os Vingadores, além de já ter vindo na cola do segundo filme (que não é na verdade uma continuação) do Incrível Hulk.


O que sim funciona no filme (sendo relavante para este blog) é o papel da tecnologia dentro da história; visualmente mais relevante - e chamativa - nas muitas cenas que acontecem no laboratório do personagem principal (Tony Stark). Lembra tanto visualmente como narrativamente a interação homem/máquina existente no filme Minority Report, interpretado por Tom Cruise (clique aqui para rever as cenas com esses efeitos), com a diferença que agora a interface está espalhada pelo ambiente, mais tridimencional em certo sentido. E Robert Downey Jr. dialoga com ela de forma muito mais leve, menos rigída (e não estamos mais em um filme futurista, mesmo estando ainda no terreno da ficção científica). Um bom uso de elementos 3D, que dialogam perfeitamente com os personagens -a ponto de serem eles mesmos personagens- e participam de momentos importantes do filme, gerando um visual que (aqui sim) encanta e inova. Bom uso da atual tecnologia de pós-produção para representar o que seria o ápice da tecnologia, genericamente falando.

Abaixo um vídeo de uma das produtoras de efeitos, onde vemos os gráficos associados aos muitos gadgets do personagem principal. E depois, uma sequência de fotos que mostra em detalhe a cena da descoberta de uma mólecula, com as primeiras idéias da equipe de produção. (Na página da Motiongrapher, há uma extensa matéria, com vídeos que ilustram perfeitamente a produção dos efeitos - e a relação com a gravação em chroma- das cenas do laboratório. Clique aqui para ver. Recomendo fortemente).

Iron Man 2 Graphics Montage from Perception on Vimeo.