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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Uma leitura do que há sob a pele de Sob a Pele, de Jonathan Glazer

AVISO: O texto abaixo contém spoilers. Muitos deles.


Uma mulher misteriosa e extremamente sedutora (e aqui estamos falando da Scarlett Johansson) dirige um carro por estradas e ruas da Escócia, procurando homens. Não qualquer homem: suas "presas" são pessoas da Albânia, da República Tcheca e de outros países do Leste Europeu. Imigrantes, portanto, mas que não se encontram isolados da sociedade em que se encontram: eles estão nas festas, no caminho do supermercado e nas torcidas de futebol. Após a abordagem casual, ela os leva até casas abandonadas e espaços obscuros, para os arrastar para dentro de um líquido preto, aprisionando e esvaziando sua essência.

Passados todos os imigrantes, o projeto de higienização atinge um jovem de 26 anos com deficiência física no rosto. A pessoa que mais leva tempo para sucumbir à sedução da bela mulher é também a primeira a escapar. Despido completamente e com todas as suas deficiências à mostra, volta para a cidade sem entender o que aconteceu.

Daí para a frente, esse ser que devorou tudo se vê obrigado a confrontar os seus próprios problemas de alimentação. O doce e belo não dá mais para engolir e o mundo limpo de coisas e pessoas diferentes parece artificial. É preciso interagir assim com o escocês padrão, que pega ônibus e mantém uma casa simples e desarumada numa periferia sem cor ou graça. O mundo limpo de diferenças é sujo e pobre, no final das contas. Com isso, o ser que devorava corpos é obrigado a olhar para o interior do seu próprio corpo (e não poderia ser feito de forma mais literal).

Resta então se isolar na floresta, essa metáfora recorrente de ambiente misterioso e infinito, que protege ao mesmo tempo que esconde, usada desde os contos de fada a outros filmes de igual abordagem, como é o caso de Lars Von Trier em seu Anticristo e Alex van Warmerdam em seu Borgman (que coleciona prêmios por onde passa e ainda permanece inédito por aqui).

Na floresta, essa mulher agora real e desesperada, encontra o mal verdadeiro que permaneceu o tempo inteiro sob a superfície (da qual se refere o título). A sociedade, no fim, culpa e elimina as diferenças para esconder suas próprias perversões, sempre muito maiores e mais presentes do que podemos imaginar. Nesse contexto violento e pesado, aparece a cor que está por dentro da própria pele, a verdadeira essência, e que pode ser entendida justamente como a de seu oposto.

Jonathan Glazer, que começou na direção dos videoclipes, como os melhores de sua geração, sabe que fazer cinema é buscar a harmonia entre aspectos textuais e visuais e é nesse ponto que Sob a Pele se destaca. Filme cheio de detalhes e com uma linguagem nova e interessante, começa documentário (e as pessoas que entram no carro são, em muitos casos, não atores, sem nem saber que se tratava de um filme); passa para o fantástico de visual complexo, mas feito em cima de poucos e expressivos elementos (as sequências do líquido preto são assustadoras e belas, em igual medida); e termina pura ficção, crua, fria, com silêncios e ruídos marcantes (e nesse ponto, especial atenção para a bela trilha de Mica Levi).

Scarlett Johansson, a mais bela atriz do momento também mostra que sabe escolher papéis como poucos. Depois de roubar a cena no Don Jon/Como Não Perder Essa Mulher de Gordon-Levitt (outro para ficar de olho), atua nesse durante o tempo inteiro do filme e praticamente sem falar, para, no filme seguinte, Ela, de Spike Jonze (um filme igualmente obrigatório), falar muito sem nunca aparecer.

Abaixo, três vídeos que ajudam a entender e mergulhar (o trocadilho é intencional) no universo criado pelo diretor. O primeiro mostra a construção da parte do documentário, com a van equipada para registrar o acaso nas abordagens com as pessoas. O segundo foca na interpretação da Scarlett. E o terceiro mostra as ideias por trás da bela trilha sonora composta para o filme. Aproveitem!





terça-feira, 4 de junho de 2013

O fantástico Jonah


O curta-metragem Jonah conta a história de como uma simples foto (ou uma ideia, como eles gostam de descrever) pode transformar uma cidade e um país rapidamente através da ação do turismo, da tecnologia e da exploração comercial. O estúdio inglês Factory Fifteen foi o responsável por criar o visual bastante complexo da história, com um belo trabalho de pós-produção e composições em 3D que modificam completamente cada frame do vídeo. Lembra o filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, pelo uso de uma fantasia gerada em computação para criticar realidades sociais difíceis em contexto africano. Ou Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michael Gondry, que mostra a ação se formando segundo a segundo através de belas composições em 3D (e essa composição gradual tem nos dois casos efeito narrativo). Mas o fato principal é que esses três exemplos usam a tecnologia como forma de criar uma realidade fantástica extremamente encantadora, contando uma história muito mais interessante quando possível de ser visualizada. O curta participou este ano do Festival de Sundance e agora chega à Internet, em alta definição. Aproveitem. 

JONAH from Factory Fifteen on Vimeo.

Jonah já foi apoiado pelo projeto The Creators Project da Intel e da Vice, que fizeram um rápido vídeo apresentando as ideias por trás da produtora (e do curta).



E como se trata de uma produtora de finalização, não podia faltar o vídeo de making of, mostrando passo a passo (e layer por layer) como foram feitas várias composições 3D do filme.

JONAH MAKING OF from Factory Fifteen on Vimeo.

ps. Em outro post também falamos sobre a última edição de Sundance e sobre o curta vencedor em uma das categorias. Outro belo curta, inclusive. Recomendo a leitura. ;)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Battles (em uns tantos vídeos geniais)


O Battles é dessas bandas que de tão cabeçudas ficam até difíceis de escutar. Poderia ser classificado como post-rock (já que lembra outras bandas como Explosions in the Sky e Toe) ou como math-rock (o que acho mais adequado na verdade, já que a estrutura do som dos caras parece mesmo matemática). Acaba sendo difícil pegar um CD e escutar de cabo a rabo mas, por outro lado, ver os vídeos para as músicas deles é extremamente interessante. Eles já tinham lançado videoclipes no primeiro álbum, para as músicas Atlas (em que se apresentam em um gigante cubo de vidro) e Tonto (em que jogam bastante com luzes). Agora lançam o segundo álbum e fazem vídeos bem diferentes para promover (seria mais ilustrar) as músicas.

O primeiro, o videoclipe para a música Ice Cream é mais uma das pirações de edição que funciona (e que gostamos). Ali vemos quase tudo: alterações de cor; imagens sobrepostas trucadas (a menina repetida em quadro); jogo de máscaras (a banda recortada misturada com outras ações); muitos takes em meia-fusão (e o take do mergulhador no bikini é sensacional); entre tantos outros. Foi feito pela produtora catalã CANADA (vai entender...) que já tinha feito o videoclipe para o também espanhol El Guincho (e aqui também abusou das mulheres lambendo coisas esquisitas, como você viu aqui). Confira abaixo.



E aqui vemos a ideia da banda sobre a música (que não é nada demais) e um saboroso (já que a música trata de sorvetes) making of do videoclipe, gravado com a Canon 7D.



Aproveitando o bom momento, eles fizeram uma genial apresentação para os franceses do La Blogothèque (certamente a melhor coisa a aparecer na música dos últimos 10 anos) em um lugar incrível: em um dos salões da prefeitura de Paris. Famosos por fazerem sempre vídeos em plano-sequência, uma só câmera, som direto, dessa vez o blog resolveu situá-los em um lugar diferente e gravar com cinco câmeras (o que possibilita umas tantas manipulações em edição). Vejam abaixo as duas músicas gravadas por eles. Bom, não?


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O oscar de montagem (ou: entre Inception e Social Network fico com Scott Pilgrim)

Contrariando a lógica de que o filme que vence o Oscar de montagem também ganha direção e melhor filme (lógica que prevaleceu ano passado com o Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow, como falamos aqui), este ano tivemos A Rede Social premiado nesta categoria, enquanto os outros dois prêmios ficavam para O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Outra coisa que também não aconteceu foi montagem ser premiada junto com categorias mais técnicas como as relacionados a som e efeitos especiais (aqui deu A Origem de Christopher Nolan -que não foi indicado como diretor, inclusive).


Logicamente os montadores Kirk Baxter e Angus Wall têm seus méritos, já que conseguiram dar bom ritmo e tornar bastante interessante um filme feito basicamente em cima de diálogos. Confira abaixo uma entrevista feita com os dois no momento seguinte à premiação. Aí eles comentam um pouco sobre essa dificuldade de trabalhar com muito texto; sobre o trabalho com David Fincher; e lamentam o diretor não ter levado no momento seguinte ao deles o prêmio também.



Mas se no post do ano anterior eu lembrava da não indicação de Redacted, de Brian de Palma para a premiação nesta categoria (o que já me parecia bastante estranho), este ano acho revoltante não termos Scott Pilgrim contra o Mundo, de Edgar Wright disputando a estatueta. Um filme atual e inovador, com uma quantidade assustadora de novas idéias por minuto, bem dirigido e bem adaptado do universo da HQ, com ritmo impressionante, apoiado em muitos efeitos e elementos gráficos diferentes. Um filme difícil de fazer e que se relaciona, na minha opinião, muito melhor com esse universo virtual/eletrônico atual, de tantas músicas em mp3, jogos de video game, televisão e Youtube (e faz isso através de um uso animal da montagem). Universo este que deveria também estar representado em A Rede Social, já que se relaciona com a história do Facebook, meio que junta todas essas mídias. A Rede Social usa da rapidez e agilidade da interação das redes sociais e é um filme inteligente e bem estruturado, mas é um filme de texto, de diálogo, careta portanto em certo sentido.

Se você acha que estou forçando a barra e a coisa não é bem nestes termos, veja abaixo então um extenso vídeo sobre os diferentes efeitos presentes no Scott Pilgrim, comentados pelo diretor de arte Nigel Churcher. (No Youtube também tem um making of de quase 50 minutos com detalhes do filme, para quem quiser se aprofundar mais).



Com isso, acho que a premiação do Oscar que vimos ontem ficou ainda mas sem graça, já que nela vimos poucos filmes competirem entre si em quase todas as categorias, sendo que muitas delas a vitória já era dada como certa por um deles muito antes de ser anunciada (como foi no caso de Toy Story 3). Mais competidores dariam mais dinamismo para a premiação, além de mostrar aos telespectadores que Hollywood não vai tão mal das pernas assim.

Em tempo: cabe aqui algumas ressalvas. Confesso que não vi ainda o 127 horas de Danny Boyle, diretor este que soube jogar incrivelmente com a montagem em diferentes filmes; seja com a lógica televisiva/bollywood em Quem quer ser um milionário?; seja com o irregular A Praia, em que víamos uma viagem de Leonardo DiCaprio inspirada também nos jogos de video game; ou no inquestionável Trainspotting. Muitos já me falaram que 127 horas cumpre o esperado.
Outra coisa é que também não mencionei Aronofsky e seu excelente Cisne Negro, filme magistral de outro diretor que sabe usar a montagem como poucos -Réquiem para um sonho e Pi são exemplos claros disso- e Cisne Negro não foge à regra. De um modo ou outro podemos dizer que a disputa estava mesmo acirrada. Se por um lado faltou Scott Pilgrim, por outro sobrou talento em poucos (e grandes) nomes.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Dexter, quadrinhos e internet


Pouquíssimas são as adaptações de HQs no cinema que conseguem fazer com que o espectador tenha uma experiência tão interessante quanto a que este tem em frente aos quadrinhos. O próprio fato do leitor juntar na sua cabeça uma imagem com a seguinte no gibi já obriga uma relação mais profunda, menos passiva que a do espectador comedor de pipocas (alguns chegam a dizer que a relação com o gibi é obrigatoriamente interativa). Os dois melhores filmes a tentarem uma experiência algo mais inteligente, na minha opinião, foram na verdade dois grandes fracassos: o primeiro é o Hulk do Ang Lee, condenado pelo CG terrível -e pela presença do Eric Bana-; o segundo é o Scott Pilgrim, que quase não entrou nos cinemas brasileiros e foi ignorado pela presente edição dos Oscars.

Eu achava que o cinema jamais conseguiria adaptar fielmente (ou criativamente) o trabalho de ilustradores como o Dave Mckean (das capas do Sandman) e Bill Sienkiewicz (de Elektra Assassina e Asilo Arkham). Bom, o primeiro já teve sua chance na direção com o Máscara da Ilusão (2005), filme que tentou usar o 3D de forma diferente, segundo ele feito por menos pessoas, com o intuito de ser mais "autoral", mas com um resultado cansativo e bastante irregular. Mas eu nunca tinha visto nada feito pelo segundo.

Não até os seis webisodes que ele assinou, no final do ano passado, para a ampliação do universo da série Dexter. Mesmo com uma animação simples e um roteiro fiel à estrutura da série mas pouco aberto a experimentações narrativas, os belos desenhos conseguiram gerar um bom clima e são, de qualquer forma, um uso criativo de uma série de TV (voltado neste caso exclusivamente para a Internet). Pros que ainda não tinham visto, vejam o primeiro episódio da série abaixo e na sequência o making of (que ele não aparece). Para ver os demais episódios, clique aqui.





E já que estamos falando de Dexter, veja também a música que o Pogo (falei mais dele aqui) fez em cima dos ruídos e barulhos da série, em outro bom exercício de edição.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Walking Dead e Criss Angel (sobre zumbis e mulheres mutiladas; truques e truques cinematográficos)


Ontem vi o primeiro episódio de Walking Dead. Certamente os fãs do gênero devem achar ele meio novelinha, muito blablaba entre uma explosão de cabeça e um zumbi mutilado. Eu achei bem bacana. É mais um a provar que, pelo menos em se tratando de roteiros, o legal está mesmo na TV a cabo americana. É uma boa aposta no final das contas. Bem executado, bem escrito, com planos bem bacanas, efeitos e maquiagem impecáveis. E aqui está o principal (que pode explicar de certa forma o blablabla do roteiro): o zumbi em si, a cabeça mutilada e a pessoa sem perna, por si só, já não impressionam muito mais (ainda que no caso da série garanta bons momentos). Se antes o legal era pensar "como esses caras fazem isso", agora já tem milhões de vídeos na internet e programas de TV que mostram o making of dos inúmeros filmes de zumbis. As passeatas de mortos-vivos que têm por aí (e teve uma recentemente em São Paulo, a da foto abaixo), já estão se bobear mais profissas que muitos filmes de baixo orçamento. Então a idéia é dar uma nova cara ao gênero. Tentar torná-lo verossímil de novo. E o roteiro é parte essencial disso.


Mas falando em efeitos, truques e aspectos relacionadas à pós-produção, acho legal eles não esconderem no material extra de divulgação como as coisas são feitas (e nem transformarem isso em show, também). Veja o vídeo abaixo por exemplo, onde vemos Robert Kirkman, criador da HQ que deu origem à série e agora produtor executivo, falar sobre o assunto ao mesmo tempo em que vemos o zumbi mutilado (o primeiro que o personagem principal vê ao sair do hospital), com tecido azul ao redor das pernas para posterior recorte do chroma.



Este zumbi mutilado serve também para ilustrar outro ponto desta discussão entre o que desconhecíamos antes e agora já conhecemos de sobra. Em uma aula, o diretor de arte espanhol Andrés Hispano usava a história da mágica para ilustrar a mudança da visão das pessoas sobre os efeitos. Dizia ele que antes nos surpreendíamos com mágicos de shows grandiosos, como David Copperfield. Este fazia um show para se ver ao vivo e o povo caía totalmente nos truques do ilusionista. Dali passamos para o David Blaine (vou pular o Mister M, desculpa), mágico minimalista que dominava a linguagem da televisão e fazia truques muito simples (quase idiotas) parecerem muito mais autênticos que os do anterior. E por último teríamos o Criss Angel, mágico que nasceu no Youtube, com truques impressionantes em vídeos de péssima qualidade (difícil para ele foi convencer os outros que a Paris Hilton tava mesmo dando bola quando tirou a foto).


Andrés usava essa mudança para falar como o público liga hoje em dia muito mais para o conteúdo do que para a definição propriamente dita (até por termos agora câmeras simples e televisões "baratas" em HD). Como exemplo, comentava que o surgimento do Dogma-95 no mesmo ano em que vazou o polêmico vídeo da Pamela Anderson com o Tommy Lee não era coincidência; os dois apontavam para esta idéia de menos definição e mais conteúdo (no caso da Pamela, que conteúdo!). E neste processo, se antes duvidávamos da produção do Copperfield, agora caímos na do Criss Angel sem contestar muito; a graça está em cair no truque afinal de contas. Mesmo ele fazendo uns truques bem safados através de pura manipulação em edição (+ atores contratados). Os truques dele viram qualquer porcaria se você passar a pensar que ele está sempre mudando coisas que você não vê entre um corte e outro (e desculpa Criss, mas o Buster Keaton já fazia isso bem melhor que você quase um século atrás). O vídeo abaixo, que ele parte uma mulher ao meio, já é um clássico (e aqui, finalmente, a ligação com o outro zumbi, do Walking Dead).



Em tempo: se quiser saber qual é o truque da mágica acima, e que tem relação com edição, como falei, é só clicar aqui. Fácil e rápido, como a internet sempre possibilita.

sábado, 25 de setembro de 2010

Mais Ok Go (ou: depois desse eu prometo que paro)

Passou já uma semana do show dos Ok Go. Minha opinião não mudou muita coisa não. Mas para fazer justiça à banda, faltou falar de dois outros videoclips, realmente relevantes para o que pretendo com este blog. Os videoclips são os das músicas WTF e End Love.


Esses caras adoram fazer um videoclip com um bom plano-sequência e esses dois não fogem à regra. A diferença aqui é que eles tem umas sacadas bem bacanas de edição. No primeiro, o WTF, eles gravam um plano-sequência em fundo verde para recorte em chroma (sem nenhuma novidade até aqui), mas colocam um efeito que cria todo o visual do clipe (e faz ele ficar interessante). Até aí nada de mais também. Bacana mesmo é ver da onde surgiu a idéia e como foi feito no video de making of feito por eles, muito bem editado, diga-se de passagem (a linguagem lembra a do programa Pânico na TV). Não é sempre que podemos ver videoclips com comentários do diretor, como já estamos acostumados nos filmes.

O segundo é o End Love e é um dos melhores usos em videoclip que conheço para os time lapses (deixando o Gondry de lado, obviamente), que agora, com as novas câmeras de foto da Canon gravando também em Full Hd (5D, 7D e a Rebel T2i) começam a pipocar por todos os lados na Internet. Mais que isso, eles sabem jogar neste videoclip perfeitamente com as velocidades. Algumas horas acelerando o tempo, algumas horas usando um super slow, algumas tantas horas indo quadro-a-quadro estilo stop motion. Nenhum efeito ultra mirabolante, mas um conjunto bem bacana, com um ritmo bem interessante. (Em outro videoclip, a versão papel-de-parede da música Do What You Want, eles também jogaram bastante com o tempo, desta vez em planos separados, cheios de corte).

Tão aí os dois vídeos abaixo. Divirtam-se.





Conclusão: ao contrário das demais bandas, esses caras deveriam fazer menos shows. E mais videoclips. (E bom saber que tem gente por aí que sabe que um videoclip não é um curta-metragem e nem uma peça publicitária).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Jogando com perspectivas

Dois vídeos que mostram jogos bem interessantes com perspectivas.

O primeiro é o videoclip de The Denial Twist, dos White Stripes, dirigido pelo Michel Gondry (sempre eles!). Como Gondry já disse milhões de vezes, para ele a mágica deve acontecer em frente da câmera; ou seja, ele manipula os elementos e compõe os efeitos muito mais durante a filmagem do que em pós-produção. Neste videoclip, ele joga com as escalas dos objetos e pessoas que estão em quadro, confundindo a perspectiva da câmera. O jogo lembra a lógica do cinema expressionista, principalmente em relação ao uso dos cenários, como no filme O Gabinete do Doutor Caligari. Em outro vídeo, vemos uma imagem do making of do videoclip, que mostra como foi montado o estúdio para alcançar estes objetivos. Confira o clipe abaixo.



Jogando também com perspectivas mas desta vez manipulando a câmera (em pós-produção), temos o vídeo experimental de Jeremy Mooney-Somers que simula uma verdadeira perspectiva reversa, como diz no título (clique aqui para saber mais). A idéia aqui é simular como seria um vídeo com a perspectiva reversa ao olho humano, ou seja, os objetos que estão mais longe ficariam maiores e diminuiriam a medida que se aproximassem da câmera. Um efeito bastante curioso que pretende só ilustrar, quase que cientificamente, um procedimento. Diferente do Gondry, que usa esses elementos para a diversão, para visuais inovadores dentro da produção de videoclips, por exemplo. Confira este outro resultado abaixo.

True Reverse Perspective from JMS on Vimeo.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Quando o making of é melhor que o curta-metragem

Com vocês, o curta-metragem canadense Nuit Blanche do diretor Arev Manoukian, da interessante produtora Spy Films. Esta produtora é conhecida por um bom e diferenciado uso do 3D nos diferentes curta-metragens que faz, a maioria deles de ficção-científica. Um dos diretores inclusive, é o sul-africano Neill Blomkamp, famoso pela direção do filme Distrito 9 (que falamos aqui).


Em Nuit Blanche, vemos como transformar quatro pessoas gravadas em um fundo Chroma em um curta-metragem interessante, com visual extremamente trabalhado (mais um exmplo da tal "mágica" do Chroma Key, que falávamos aqui). Confiram abaixo o curta-metragem na íntegra.

Nuit Blanche from Spy Films on Vimeo.


E agora vejam como eles criaram esse visual interessante, mistura de filme de época em preto-e-branco com batidas de carro estilo Matrix e efeitos 3D próprios da linguagem publicitária (que lembra para mim o trabalho do diretor russo Timur Bekmambetov) apenas combinando e manipulando diferentes imagens que já existiam, durante o processo da pós-produção. É um desses casos que o making of acaba sendo tão ou mais bacana que o próprio curta-metragem. No melhor estilo "Mister M", muitas vezes é mais legal saber o que está por trás do truque. Divirtam-se.

Making Of Nuit Blanche from Spy Films on Vimeo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A montagem de "Jajá - Arara Rara"

No final do ano passado tive o prazer de montar o piloto da série "Jajá - Arara Rara", para o pessoal do Mol Toons. O projeto fazia parte do "Anima TV" da TV Cultura, que tem por objetivo (segundo o site do programa):

"A ideia é estimular o desenvolvimento da indústria brasileira de animação a partir da sistematização de ações que visam à geração de projetos em diversos pontos do País, realização de ações regionais de capacitação, articulação de um circuito nacional, dinamização da produção entre estúdios, além da inserção da animação brasileira no exterior."

Ao todo, 17 projetos foram escolhidos e co-patrocinados pela emissora, que os exibiu em sua programação nos meses de janeiro e fevereiro. Todo o processo já acabou e já foram divulgados os vencedores, mas ainda haverá uma ou outra exibição das animações. "Jajá - Arara rara" (essa aí abaixo) será exibida novamente no dia 8 de maio às 13h45 e no dia 20 de junho às 12h15.


O legal de montar essa animação foi que aqui não tínhamos uma quantidade gigantesca de material para cada cena ou take (até porque o processo de animação em si é longo e trabalhoso e, por isso, extremamente calculado no início). A minha função foi mais a de dar ritmo e tempo para as piadas e ajudar em toda a estrutura, cortando uma ou outra coisa para chegar no tempo estipulado. Acontece que durante o processo de animação, alguns takes acabaram ficando maiores do que o que foi previsto durante o animatic (uma versão em vídeo do storyboard, já com marcações da câmera, que ajuda a visualizar o futuro desenho).

Este projeto mostrou que há muitas possibilidades de animação diferentes e que temos no Brasil uma mão-de-obra muito boa, além de excelentes idéias. O que falta é mesmo incentivo, apoio, estrutura, formatos de comercialização e novos canais de exibição. "Jajá - Arara Rara" não foi um dos dois projetos vencedores (a disputa foi bastante difícil) mas com certeza ainda estará um dia em uma televisão perto de você (eu, na real, torço muito por isso).

Fiquem abaixo com uma pequena amostra do que é a série. Para ver o making of de todo o Anima TV, com entrevistas com os responsáveis de cada um dos projeto (eu apareço falando um pouquinho sobre isso aí que eu falei acima, da montagem deste episódio), cliquem aqui.

E aqui, Chico Zullo, diretor do piloto, fala um pouco (em inglês) sobre o seu processo de criação usando o software "Toon Boom", de animação. Para quem quiser ter um pouco mais de informações técnicas a respeito.

Jajá Arara Rara from MOL Toons on Vimeo.


Em tempo: este blog já registrou mais de mil acessos desde que comecei a ter os dados disso, exatamente dois meses atrás. Obrigado pela preferência!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A pós-produção do filme do Chico Xavier

Como parte do lançamento do filme de Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho, que estreou semana passada nos cinemas, a produção do filme disponibilizou em canais como o Youtube um extenso material, registrando os bastidores do longa-metragem. Um material bem feito, bem editado e que serve para ilustrar o trabalho das pessoas envolvidas na produção, gerando curiosidade sobre a história que está sendo narrada.

Na segunda parte do making of (três no total), eles contam um pouco sobre o processo de pós-produção, colocando mais atenção aos efeitos especiais, composições e criações de elementos em 3D do que à montagem propriamente dita. Tentam reforçar assim a imagem de "mega-produção" associada ao filme, mostrando a complexidade e o trabalho que está por trás do que não se vê. Mas é interessante conhecer alguns dos efeitos empregados, bem ilustrados neste making of, comentados pelo supervisor técnico de pós da O2, Paulo Barcellos Jr. Em suas palavras, "metade do filme é pós-produção".

Vejam o vídeo abaixo (para os impacientes, eles começam a comentar sobre pós-produção aos 3'24")



Também me pareceu interessante - e bem feito - o trailer do filme. Sem grandes inovações e efeitos, o trailer vende bem a história, mostra os principais personagens,e entra no universo do filme com bom ritmo, imagens bonitas e boa edição dos diálogos. Sempre acho que os trailers nacionais ou contam toda a história, em uma edição longa e com muitos diálogos ou acaba pegando só as cenas polêmicas (e aqui a cena de nudez padrão, herança da pornochanchada) em um combinado que não faz muito sentido e tenta chamar atenção mais pelo sensacionalismo do que pela história em si. O trailer de Chico Xavier não tem nenhuma grande inovação mas é eficiente e acho que funciona bem para promover o filme.



Legal a iniciativa da produção do filme em documentar todo o processo e disponibilizar isso na Internet ao mesmo tempo em que o filme estréia nas salas de cinema, não esperando que este seja mais um extra para o lançamento em DVD. O público - e o cinema nacional como um todo - ganha muito com iniciativas como esta.