quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Everything is a remix. (ou: expondo e discutindo a manjada indústria cinematográfica)

Nada se cria. Tudo se copia. Segundo Kirby Ferguson, nos dias de hoje, everything is a remix.

Em cima deste conceito, o americano está criando uma série de vídeos (2 até o momento) que mostra como a indústria cultural, principalmente música (no primeiro vídeo) e cinema (no segundo), não consegue não se apropriar do já existente para criar novos produtos (como um terrível vício). A tese é logicamente mais antiga que esses caras e está sendo hoje em dia muito expandida dentro dos meios acadêmicos. Rick Altman no seu importante livro Os gêneros cinematográficos (2000) falava que este vício vem da necessidade da indústria de estar sempre criando franquias para fidelizar o público (gerando assim mais dinheiro) e o francês Nicolas Borriaud em seu Pós-produção (2007 - falei mais sobre ele aqui) discutia como hoje é mais legal justamente se apropriar do já feito para gerar novos produtos (aqui na verdade ia para o lado da apropriação e alteração em montagem, um uso mais artístico e consequentemente, mais valioso).


Mas nenhum dos acadêmicos fez um vídeo tão interessante e bem editado como fez o senhor Ferguson (o figura acima), que ainda por cima ilustra claramente como a indústria cinematográfica é repetitiva, girando sempre sobre os mesmos temas e conceitos (inclusive visualmente). Cinema é indústria e, para isso, deve render dinheiro (o formato disto foi inclusive brilhantemente atacado recentemente pelo mestre Coppola - ver aqui). E para render dinheiro, nada como jogar em terreno seguro, na melhor lógica de não se mexe em time que está ganhando (se está realmente ganhando nos dias de hoje é outro ponto a se discutir).

Vejam o vídeo abaixo. É o segundo da série. E aqui fala só sobre cinema.



Ilustrando também o conceito e focando sobre o exemplo do Kill Bill (mencionado no final do exemplo acima), o editor Rob Wilson fez outro vídeo (em parceria com Ferguson, inclusive) que mostra todas as milhares de referências usadas por Tarantino para compor o que poderia ser a obra-prima do remixing. Tarantino é o rei do copy/paste e é o melhor a se apropriar de signos antigos para criar alguma coisa ao mesmo tempo pop/vendável e inovador/vanguardista. Por isso mesmo tem milhões de teses por aí usando o figura para ilustrar conceitos do pós-modernismo. Se todo mundo copia tudo descaradamente, achando que está criando algo inovador, aqui a graça está justamente em expor essas referências e jogar com elas. É o mashup no lugar do remix.

Divirtam-se com o vídeo abaixo.



Os dois vídeos ajudam a jogar nova luz nos estudos acadêmicos e a expor de forma fácil e divertida as manjadas fórmulas da indústria cinematográfica, que explora demais os plots, as estruturas de roteiro, os mesmos personagens e situações, as mesmas fontes e referências. Algo muito bom e positivo deve vir de isso tudo no futuro. Como diria Lars Von Trier, "se você pensar que a história da arte começou quando um homem rabiscou a caverna e comparar com os cem anos da história do cinema, podemos pensar que agora mal sabemos como desenhar um bisão".

Ps. para seguir o projeto do Everything is a remix, fique ligado no twitter dos dois (@remixeverything e @robgwilson) e nos blogs pessoais (http://www.everythingisaremix.info/ e http://robgwilson.com/). As novidades e os próximos vídeos virão por aí.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Poder aos Latinos! (com Major Lazer)

Major Lazer é um projeto musical criado em 2009 pelo Diplo e pelo tal do Switch, com participações da Santigold e mais uma porrada de gente. Ou, se preferir, é um guerreiro jamaicano que perdeu o braço numa luta secreta com zumbis em 1984 (e desde então combate vampiros e outros monstros com seu lança-foguetes implantado no braço).


O primeiro single lançado por eles, chamado Hold The Line já tinha um videoclipe visú, mistura de desenho do He-Man com propaganda para vender Comandos em Ação.



Mas nada supera o clipe feito pela produtora argentina Flamboyant Paradise (!) para o remix dos Frikstailers (!!). Não só a música ficou ainda melhor como aqui eles conseguem uma perfeita combinação de linguagens, cores, efeitos visuais, técnicas, figurinos, óculos com raios e bigodes para Moraes Moreira nenhum botar defeito. Coisa difícil (para não dizer impossível!). Aproveite sem moderações.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Editando com vários softwares (ou possibilidades)

O mais legal da montagem para cinema atualmente ser feita por computadores é que, ao contrário da moviola, podemos agora integrar facilmente diferentes tipos de formatos (de fitas VHS a películas 35mm) e também de mídias - um gráfico, um texto, uma imagem... Basta para isso ter histórias que comportem este tipo de linguagem (que aparece na publicidade, nos videoclips e vídeos da internet, mas dificilmente chega aos cinemas).

A melhor ilustração para esse jogo com formatos e possibilidades vem desta campanha recém lançada pela Intel, que joga narrativamente com o cruzamento de usos de softwares, aplicativos e páginas da Internet, para demonstrar a capacidade dos processadores (e a interação com todas essas mídias que cada vez estamos mais acostumados).


Outro que vai na mesma linha é um stop-motion feito através do google docs, que mostra também como não precisamos de dinheiro e muitos aparatos para fazer algo legal (além de mostrar como apresentações estilo ppt são -em quase todos os casos- toscas, tediosas e mal-feitas). Mais infos no Motionographer.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Boardwalk Empire e mais mágica do Chroma Key


Um dos melhores acontecimentos do audiovisual mundial em 2010 foi certamente a série Boardwalk Empire, da HBO americana, criada por Martin Scorsese e estrelada por Steve Buscemi (dois caras geniais). A empresa de efeitos Brainstorm Digital divulgou agora (que a primeira temporada terminou) um vídeo mostrando como eles fizeram a perfeita ambientação da série, que recria os anos 20 de Al Capone. Trabalho impecável (e criativo) que mistura grandes cenários a composições feitas em pós-produção através do recorte em Chroma (e muita criação em 3D). Vejam o vídeo abaixo (pros que estão no meio da série - como eu - o vídeo pode mostrar uma coisa ou outra que ainda não apareceu, já aviso. Mas não tira a graça das duas coisas - vídeo e série- na minha opinião. Pode ver sem medo).


E se você acha que está aí o grande trabalho de criação da série, aqui vai um time lapse do canal da HBO no Youtube, mostrando o imenso trabalho de criação do set principal da série, que aparece muitas vezes no vídeo acima.


Um e outro mostram o trabalho preciso e demorado que está por trás da criação da série e que ninguém nem imagina (mas admira). Depois disso, fica alguma dúvida da importância da série? Se você ainda não viu, vá atrás.

E por falar em Chroma Key, um bom exemplo está também em outro post, que mostrava a criação por trás do filme A Troca, do Eastwood. A recriação dos dois foi feita de forma bem parecida, inclusive. Clique aqui se quiser ler mais a respeito.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre Fugazi, Cassavetes e trabalho na praia


Através do amigo Andre Cruz, conheci o Jaume Montané, uma das metades da produtora catalã Copilotos e criador de algo genial: o melhor videoclipe não-oficial do Fugazi, banda de Washington D.C. (a da foto acima) que além de vender seus álbuns com preço impresso na capa, tem a fama de nunca ter feito um videoclipe.


A música que ele escolheu acho que é a minha predileta (do meu álbum predileto) do Fugazi (uma das minhas bandas prediletas): a Cassavetes, do In On the Kill Taker (álbum de 1993). Usando o tema da música, ele cruzou apresentações ao vivo da banda (provavelmente tirada do Instrument, ótimo DVD deles lançado em 2001) com cenas do filme Faces, dirigido pelo John Cassavetes em 1968 em que mais uma vez Gena Rowlands, também esposa do diretor, atua (é também citada na letra da música). Ah, o filme foi rodado na casa do casal, inclusive. Confiram o resultado do videoclipe abaixo.



E para aproveitar este que deve ser o último post do ano (já que ninguém é de ferro!), aí vai uma publicidade da produtora deles, a Copilotos, que ilustra muito bem como é trabalhar (e ter uma produtora) nesta época do ano. "Alô? Não... não fechamos. Aqui estamos. Em que posso lhe ser útil?". Aproveito este post então para desejar boas festas a todos (e bom trabalho pros que ficam).



Em tempo: nestes 10 meses de vida do blog, já tive mais de 13 mil visitas. Obrigado pela preferência. Postando sempre para postar bem (ou seria o contrário?). Celebremos então!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Walking Dead e Criss Angel (sobre zumbis e mulheres mutiladas; truques e truques cinematográficos)


Ontem vi o primeiro episódio de Walking Dead. Certamente os fãs do gênero devem achar ele meio novelinha, muito blablaba entre uma explosão de cabeça e um zumbi mutilado. Eu achei bem bacana. É mais um a provar que, pelo menos em se tratando de roteiros, o legal está mesmo na TV a cabo americana. É uma boa aposta no final das contas. Bem executado, bem escrito, com planos bem bacanas, efeitos e maquiagem impecáveis. E aqui está o principal (que pode explicar de certa forma o blablabla do roteiro): o zumbi em si, a cabeça mutilada e a pessoa sem perna, por si só, já não impressionam muito mais (ainda que no caso da série garanta bons momentos). Se antes o legal era pensar "como esses caras fazem isso", agora já tem milhões de vídeos na internet e programas de TV que mostram o making of dos inúmeros filmes de zumbis. As passeatas de mortos-vivos que têm por aí (e teve uma recentemente em São Paulo, a da foto abaixo), já estão se bobear mais profissas que muitos filmes de baixo orçamento. Então a idéia é dar uma nova cara ao gênero. Tentar torná-lo verossímil de novo. E o roteiro é parte essencial disso.


Mas falando em efeitos, truques e aspectos relacionadas à pós-produção, acho legal eles não esconderem no material extra de divulgação como as coisas são feitas (e nem transformarem isso em show, também). Veja o vídeo abaixo por exemplo, onde vemos Robert Kirkman, criador da HQ que deu origem à série e agora produtor executivo, falar sobre o assunto ao mesmo tempo em que vemos o zumbi mutilado (o primeiro que o personagem principal vê ao sair do hospital), com tecido azul ao redor das pernas para posterior recorte do chroma.



Este zumbi mutilado serve também para ilustrar outro ponto desta discussão entre o que desconhecíamos antes e agora já conhecemos de sobra. Em uma aula, o diretor de arte espanhol Andrés Hispano usava a história da mágica para ilustrar a mudança da visão das pessoas sobre os efeitos. Dizia ele que antes nos surpreendíamos com mágicos de shows grandiosos, como David Copperfield. Este fazia um show para se ver ao vivo e o povo caía totalmente nos truques do ilusionista. Dali passamos para o David Blaine (vou pular o Mister M, desculpa), mágico minimalista que dominava a linguagem da televisão e fazia truques muito simples (quase idiotas) parecerem muito mais autênticos que os do anterior. E por último teríamos o Criss Angel, mágico que nasceu no Youtube, com truques impressionantes em vídeos de péssima qualidade (difícil para ele foi convencer os outros que a Paris Hilton tava mesmo dando bola quando tirou a foto).


Andrés usava essa mudança para falar como o público liga hoje em dia muito mais para o conteúdo do que para a definição propriamente dita (até por termos agora câmeras simples e televisões "baratas" em HD). Como exemplo, comentava que o surgimento do Dogma-95 no mesmo ano em que vazou o polêmico vídeo da Pamela Anderson com o Tommy Lee não era coincidência; os dois apontavam para esta idéia de menos definição e mais conteúdo (no caso da Pamela, que conteúdo!). E neste processo, se antes duvidávamos da produção do Copperfield, agora caímos na do Criss Angel sem contestar muito; a graça está em cair no truque afinal de contas. Mesmo ele fazendo uns truques bem safados através de pura manipulação em edição (+ atores contratados). Os truques dele viram qualquer porcaria se você passar a pensar que ele está sempre mudando coisas que você não vê entre um corte e outro (e desculpa Criss, mas o Buster Keaton já fazia isso bem melhor que você quase um século atrás). O vídeo abaixo, que ele parte uma mulher ao meio, já é um clássico (e aqui, finalmente, a ligação com o outro zumbi, do Walking Dead).



Em tempo: se quiser saber qual é o truque da mágica acima, e que tem relação com edição, como falei, é só clicar aqui. Fácil e rápido, como a internet sempre possibilita.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

People Change (enfim, em um Vimeo perto de você)


Mais ou menos um ano atrás eu concluía um curta-metragem (o meu primeiro), feito de forma extremamente barata (no campo "orçamento" do formulário de inscrição de alguns festivais eu coloquei algo como 5 euros, o preço de uma fita mini-dv), que servia inicialmente para ilustrar umas tantas idéias da minha tese de mestrado, que tinha como tema inovações em montagem no Cinema. O curta contou com a colaboração de alguns amigos e foi feito ao longo de uns seis meses em frente ao After Effects, nos meus meses finais em Barcelona. Ele tenta ilustrar algumas das tantas coisas que um montador pode fazer com os softwares de edição disponíveis, afim de ganhar sentido narrativo (as idéias por trás dele eu falei melhor aqui).

Neste ano ele rodou quatro festivais: a Mostra do Filme Livre e o Cinesul - Festival Latino-americano de Cinema e Vídeo, que acontecem no Rio de Janeiro; o Festival Locomotiva de Animação, que acontece em Garibaldi, no Rio Grande do Sul; e a VI Mostra Internacional de Curtas da Unioeste, Universidade de Toledo-PR (falei mais sobre dois deles aqui).

O resultado você pode conferir abaixo. Espero que goste.

People Change from Ricardo Kenski on Vimeo.


Fica aqui novamente meu agradecimento a todos que me ajudaram a realizá-lo. E aos festivais que acreditaram na idéia.