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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O oscar de montagem (ou: entre Inception e Social Network fico com Scott Pilgrim)

Contrariando a lógica de que o filme que vence o Oscar de montagem também ganha direção e melhor filme (lógica que prevaleceu ano passado com o Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow, como falamos aqui), este ano tivemos A Rede Social premiado nesta categoria, enquanto os outros dois prêmios ficavam para O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Outra coisa que também não aconteceu foi montagem ser premiada junto com categorias mais técnicas como as relacionados a som e efeitos especiais (aqui deu A Origem de Christopher Nolan -que não foi indicado como diretor, inclusive).


Logicamente os montadores Kirk Baxter e Angus Wall têm seus méritos, já que conseguiram dar bom ritmo e tornar bastante interessante um filme feito basicamente em cima de diálogos. Confira abaixo uma entrevista feita com os dois no momento seguinte à premiação. Aí eles comentam um pouco sobre essa dificuldade de trabalhar com muito texto; sobre o trabalho com David Fincher; e lamentam o diretor não ter levado no momento seguinte ao deles o prêmio também.



Mas se no post do ano anterior eu lembrava da não indicação de Redacted, de Brian de Palma para a premiação nesta categoria (o que já me parecia bastante estranho), este ano acho revoltante não termos Scott Pilgrim contra o Mundo, de Edgar Wright disputando a estatueta. Um filme atual e inovador, com uma quantidade assustadora de novas idéias por minuto, bem dirigido e bem adaptado do universo da HQ, com ritmo impressionante, apoiado em muitos efeitos e elementos gráficos diferentes. Um filme difícil de fazer e que se relaciona, na minha opinião, muito melhor com esse universo virtual/eletrônico atual, de tantas músicas em mp3, jogos de video game, televisão e Youtube (e faz isso através de um uso animal da montagem). Universo este que deveria também estar representado em A Rede Social, já que se relaciona com a história do Facebook, meio que junta todas essas mídias. A Rede Social usa da rapidez e agilidade da interação das redes sociais e é um filme inteligente e bem estruturado, mas é um filme de texto, de diálogo, careta portanto em certo sentido.

Se você acha que estou forçando a barra e a coisa não é bem nestes termos, veja abaixo então um extenso vídeo sobre os diferentes efeitos presentes no Scott Pilgrim, comentados pelo diretor de arte Nigel Churcher. (No Youtube também tem um making of de quase 50 minutos com detalhes do filme, para quem quiser se aprofundar mais).



Com isso, acho que a premiação do Oscar que vimos ontem ficou ainda mas sem graça, já que nela vimos poucos filmes competirem entre si em quase todas as categorias, sendo que muitas delas a vitória já era dada como certa por um deles muito antes de ser anunciada (como foi no caso de Toy Story 3). Mais competidores dariam mais dinamismo para a premiação, além de mostrar aos telespectadores que Hollywood não vai tão mal das pernas assim.

Em tempo: cabe aqui algumas ressalvas. Confesso que não vi ainda o 127 horas de Danny Boyle, diretor este que soube jogar incrivelmente com a montagem em diferentes filmes; seja com a lógica televisiva/bollywood em Quem quer ser um milionário?; seja com o irregular A Praia, em que víamos uma viagem de Leonardo DiCaprio inspirada também nos jogos de video game; ou no inquestionável Trainspotting. Muitos já me falaram que 127 horas cumpre o esperado.
Outra coisa é que também não mencionei Aronofsky e seu excelente Cisne Negro, filme magistral de outro diretor que sabe usar a montagem como poucos -Réquiem para um sonho e Pi são exemplos claros disso- e Cisne Negro não foge à regra. De um modo ou outro podemos dizer que a disputa estava mesmo acirrada. Se por um lado faltou Scott Pilgrim, por outro sobrou talento em poucos (e grandes) nomes.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Os efeitos visuais de "O Segredo Dos Seus Olhos"

No post anterior, usava o filme "O Segredo Dos Seus Olhos", do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de filme estrangeiro neste ano, para comparar as cinematografias de Brasil e Argentina. Mas pouco falei do filme em questão.


A verdade é que o filme vale pelo simples fato de ser um ótimo filme e por isso, fosse ele da Argentina, do Brunei, ou do Quirguistão, mereceria de qualquer forma o prêmio da Academia. O filme tem um ótimo roteiro, diálogos muito inteligentes, atores convincentes (e mesmo tendo o Darín em todos os filmes argentinos, acho que ele sempre consegue me convencer; neste até mais que em outros), ótima fotografia, planos interessantes e, é claro, um plano-sequência de cair o queixo.

Logo nos cinco primeiros minutos do filme, mostrando diferentes possibilidades de histórias a serem contadas, o diretor joga com diferentes texturas para mostrar uma história de amor (que mais parece comercial de margarina), uma despedida em uma estação de trem (com muito movimento, uma composição de planos que parece simular um sonho) ou uma cena de estupro (câmera na mão e muito movimento). Com isso, entra na história, que vai prendendo o espectador aos poucos, até o clímax final. Filme inteligente, com bom ritmo, despretencioso, que garante bons momentos cômicos e bons momentos de suspense e perseguição, sem nunca errar a mão. Vale lembrar que Juan José Campanella não só assina a direção como também o roteiro, a produção executiva e a montagem.

E como todo bom montador gosta de fazer, aqui temos um excelente plano-sequência, que quase chamou mais atenção que o próprio filme. Com duração de mais de 5 minutos, saímos de um plano aéreo de um estádio, vamos até o personagem principal e o acompanhamos em uma frenética perseguição, com muitas mudanças de ambiente. Abaixo coloco alguns vídeos que mostram como foram feitos os principais efeitos durante a pós-produção, principalmente para fazer este plano. Um efeito elaborado, usado anteriormente no filme "O Senhor dos Anéis" e usado pela primeira vez na Argentina, segundo eles.

E vale lembrar, para completar o post anterior, que esta foi a segunda indicação de Campanella ao prêmio de melhor filme estrangeiro, já que ele já havia disputado por "O Filho da Noiva", de 2001. E foi o segundo prêmio de filme estrangeiro do Oscar conquistado pela Argentina. O primeiro foi o tal "La Historia Oficial", de 1985, dirigido por Luis Puenzo.

Veja abaixo, os interessantes making-offs do filme, nessa sequência :(há muitos mais no Youtube. Aqui coloco os que achei mais interessantes ou relevantes)
1. Programa argentino (sem legendas) que mostra parte da cena, entrevista o diretor e outros envolvidos e ilustra parte dos efeitos usado no plano-sequência.
2. Rodrigo Tomasso, supervisor de efeitos, comenta sobre os efeitos usados no plano-sequência.
3. Um vídeo mais técnico, da produtora de efeitos, que mostra os diferentes layers 3D usados na primeira parte do plano-sequência. Muito interessante e ilustra o efeito magistralmente.
4. Aqui, eles mostram como foi feito outro ponto difícil do plano sequência, que é a queda do homem que é perseguido, quando a câmera sai de um andar e passa a acompanhar o homem no outro.
5. Por último, outro vídeo da produtora de efeitos especiais onde vemos a composição em 3D do plano do trem.
Aproveitem!









segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cinema argentino, Beckham, Pondé e Oscar.

O ex-professor Luiz Felipe Pondé fez uma comparação brilhante entre as cinematografias brasileira e argentina em sua coluna da Folha do dia 29 de março deste ano (clique aqui para ler a mesma matéria, publicada na íntegra em um blog). Em seu "desabafo", começa falando que foi "mais do que justo" o Oscar recente para "O Segredo dos Seus Olhos" e que "o cinema de 'los hermanos' é melhor que o nosso". Continua: "Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social."


No artigo, critica essa visão política que todo diretor estreante diz ter, como se cinema fosse instrumento de transformação social. No artigo, desmonta o culto ao Glauber Rocha, que tal como Caetano Veloso, parece -pela visão da crítica e também do público- que criou tudo que existe até hoje e que o futuro dependerá sempre desses caras. A verdade é que brasileiro mal vai ao cinema para ver seus próprios filmes, seja para ver mega-produções, novelas extendidas, histórias intelectuais ou o que quer que seja. Não temos indústria, não temos constância, mal temos público. E ainda assim, nos sentimos injustiçados por nunca ter conseguido um prêmio do Oscar.

Outro professor, Fernando de Felipe, de Barcelona, comentava sobre o Oscar que os irmãos Cohen ganharam por "Onde os Fracos Não Têm Vez / No Country for Old Men", em 2008, falando que o Oscar vem exatamente quando os envolvidos não precisam mais dele. Ou seja, em geral ele não premia o filme; premia mais a trajetória do diretor, ator, produtores e demais envolvidos, quando estes já demonstraram em muitas ocasiões que são dignos do cobiçado prêmio (e se falamos de Oscar e irmãos Cohen, o Oscar que Jeff Bridges levou este ano - e não por "O Grande Lebowski"- confirma essa teoria). Os Cohens já alcançaram um status que conseguem fazer o que bem entendem, com quem bem entendem, do jeito que acham mais adequado. O prêmio não faz com que eles consigam mais e melhores atores ou contratos, ou consigam produzir melhores filmes ou com mais orçamento. Isso poderia servir quando eles lançaram o ainda "independente" "Fargo" de 1997 (ganhou só o Oscar de roteiro original). O prêmio, hoje em dia, só confirma o que todos já sabem.

Dito isso, voltemos ao cinema brasileiro: como querer ganhar um prêmio de melhor filme estrangeiro e ter a nossa cinematografia "enfim" premiada, se não podemos dizer nem que temos a tal "cinematografia"? Produzimos um Walter Salles, um Fernando Meirelles, um José Padilha e achamos uma vez mais que cada um deles é "o" cara e que agora sim merecemos o prêmio. Mais ou menos como pensar que o Beckham ou o Cristiano Ronaldo podem vencer a Copa do Mundo para seus respectivos países, sozinhos. Mais importante que o prêmio de melhor filme estrangeiro do Oscar é certamente o Urso de Ouro de "Tropa de Elite" (2007), as indicações de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil" (1998) ou Daniel Rezende, por edição, César Charlone por fotografia, Bráulio Mantovani por roteiro e o próprio Meirelles por direção, com "Cidade de Deus", em 2004. Estes outros prêmios e indicações mostram que estamos no caminho certo e que temos ótimos profissionais, capazes de fazer ótimos filmes; e que uma hora chegaremos lá.

José Padilha e seu "urso".

A produção cinematográfica argentina é mais uniforme, mais identificável, mais "simpática" aos olhos americanos, mais lúdica, e principalmente, menos arrogante e mais divertida que a nossa. "Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções", diz Pondé. Até por acharmos que estamos fazendo justiça através do Cinema e que os nossos filmes falam a verdade e são extremamente importantes para o desenvolvimento do país, achamos que somos injustiçados pelo fato das outras pessoas também não verem esses fatores. Cinema deve ser antes de tudo divertido, deve falar ao maior número possível de pessoas (ao menos de vez em quando) e deve ser produto da realidade em que está, sem a pretenção de representá-la fielmente. Neste caso, me parece mil vezes mais interessante - e mais relevante para o país - o que faz, de forma divertida, Jorge Furtado (e "Saneamento Básico - o Filme" seria mais representativo neste ponto) do que faz muitos outros diretores, como Sergio Bianchi, que diz querer falar muitas verdades, mas acaba sendo muito panfletário e pouco adequado à linguagem do cinema (como no fraco e inconstante "Quanto Vale ou é por Quilo?" de 2005).

Temos que produzir mais e produzir melhor. Que venham muitas sequências de "Se eu Fosse Você" e "Tropa de Elite"; que o público passe a gostar de ir ao cinema para ver nossos filmes; que lancemos novos diretores (como o Esmir "Tapa na Pantera" Filho, que acaba de lançar seu primeiro longa no cinema); que a gente consiga contar mais histórias e histórias diferentes; ou filmes diferentes, que pensem também em "como" contar e não só em "que" contar. O prêmio certamente virá; e será decorrência de tudo isso.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Planos e cortes - a confusão entre quem faz o quê.

Só mais uma coisa sobre o Oscar e o prêmio de edição que aconteceu no último final-de-semana. Dessa vez, não sobre os filmes indicados e sim sobre a própria premiação.

Esse ano achei legal o jeito educativo que o Oscar tratou as diferentes categorias. Colocaram uns tantos clips para mostrar os bastidores do cinema, para explicar melhor o que faz cada profissional envolvido e porque cada um deles merece ser premiado afinal de contas.


Para o prêmio de edição colocaram o figura acima, o tal do Tyler Perry (ator, diretor e produtor conhecido por lá - produtor executivo do filme "Preciosa" inclusive) para apresentar o prêmio, fazendo uma brincadeira que tinha a idéia de ilustrar um pouco melhor o quê faz o editor de cinema. Na apresentação ele falava que o editor escolhia e selecionava entre os diferentes planos filmados pelo diretor. E daí começava a brincar com a história dos planos, saindo do seu plano médio para um mais aberto, um de cima, um do público ou um que seria de bastidores, onde os apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin viam a premiação pela televisão. O jogo com os diferentes planos foi educativo e interessante. Mas não serviria mais para ilustrar o quê faz o diretor e não o editor?

É mais uma coisa dessas feitas para confundir todo interessado por cinema sem conhecimento específico, que acaba achando que o diretor só dirige os atores ou que se o filme tem imagens bonitas ou paisagens exuberantes é porque tem boa fotografia. O diretor de fotografia trabalha basicamente com luz, criando os ambientes e chegando à imagem pensada pelo diretor, usando para isso lentes, filtros e coisas do tipo. O diretor pensa sobretudo em planos e quebra as diferentes ações descritas no roteiro em uma série de situações com enquadramentos diferentes, para que juntos (em edição) virem um filme como conhecemos. Também funciona logicamente dirigindo os atores e servindo como uma visão central de todo o projeto, dando coordenadas para que os diferentes setores (figurino, arte, maquiagem, etc.) trabalhem em paralelo, ilustrando a sua visão da história. O editor tem essa tarefa ingrata então de juntar um monte de material algo desconexo (até porque dificilmente filmam na mesma sequência descrita no roteiro) e chegar ao formato final. Mais que isso, ele seleciona, corta, junta as diferentes imagens e também manipula elas, criando outras linguagens ou chegando a diferentes resultados visuais. Alguns dizem que um filme é escrito três vezes: no roteiro, na filmagem e na edição.

De qualquer modo, é difícil a tarefa de mostrar o que é edição cortando câmeras em um programa ao vivo. Eu preferiria que mostrassem o que é edição através de uma matéria ou clip, que nem eles fizeram para as outras categorias, e aí sim bem editado. Mais ou menos como o vídeo abaixo usa o 3D e o vídeo para mostrar o que está por trás da produção de 3D e de vídeos. Muito mais legal se você usa os próprios recursos para explicar direito o que faz.



Para ver um pouco mais sobre os cinco filmes indicados ao prêmio, comentados pelo editor Michael Tronick (editor de filmes tão diferentes como "Perfume de Mulher", "S.W.A.T." ou o show dos Jonas Brothers em 3D) recomendo este vídeo do canal do Oscar no Youtube. Ele não fala de nenhum aspecto mais técnico nem faz uma análise muito profunda. Ainda assim é interessante ver sua opinião sobre os indicados e lembrar de algumas boas cenas dos filmes (como a do limpador de parabrisa do Guerra ao Terror). Como eles não me deixam publicar direto no blog, clique aqui para ver o vídeo no Youtube.

terça-feira, 9 de março de 2010

O Oscar de edição de "Guerra ao Terror". (ou: porque mais uma vez o prêmio para a Edição não fez muito sentido)

E não é que quem ganhou o Oscar de Edição foram Bob Murawski e Chris Innis pelo seu trabalho em "Guerra ao Terror" da diretora Kathryn Bigelow? Sou mais um a arriscar palpites e a acabar errando (como todo mundo neste ano). O que mais me incomoda na verdade é que, de todos os indicados, acho que eles eram os que menos mereciam ter ganhado o prêmio na categoria. E isso não quer dizer que eu não tenha achado o filme bom ou que ele não merecesse os prêmios das outras categorias.


O filme é interessante, o tema é atual e relevante (o que explicaria o Oscar de roteiro original), tem planos belíssimos e boa direção de atores em uma crítica eficaz (o que explicaria os prêmios de direção e filme) e o tema bélico sempre usa ótimos recursos sonoros para fazer o público se sentir dentro da ação (o que explicaria os outros dois prêmios - mixagem e edição de som - que andam em geral juntos). Mas o prêmio de edição, como escrito no post anterior, acabou saindo em função dos outros dois prêmios principais (direção e filme), praticamente uma regra de toda edição do Oscar. Ou seja, é o pensamento de que se o filme é bom e bem dirigido, ele é consequentemente bem editado. Nisso está também a idéia implícita de que quem manda na edição é o diretor - o que é verdade em parte. O editor depende obviamente da visão e da opinião do diretor para fazer seu trabalho e aprovar boa parte das escolhas que faz (isso quando o diretor não é vetado do processo pelos produtores, o que era uma regra no cinema clássico americano). Mas acho que um prêmio de edição deve premiar aqueles profissionais que usaram o meio com mais eficiência; que criaram melhores linguagens usando seus recursos específicos; que conseguiram criar um ritmo próprio em montagem, não dependendo apenas do ritmo das imagens filmadas.

A edição de "Guerra ao Terror" está em função da história e pouco aparece; é completamente invisível, mais até que em Avatar, onde os efeitos 3D cobravam obrigatoriamente sentido. Cria um bom ritmo e o filme é bem eficiente, mas não há nada feito magistralmente ali na minha opinião. No início do filme ainda pensei que fosse ver algo mais inovador, já que a tensão da cena inicial é muito bem representada. Nela vemos o bom uso da imagem gravada pelo robozinho que faz a busca por bombas intercalada com imagens dos soldados que o controlam (por joystick) e imagens que localizam os personagens no contexto (a Guerra e a rua em que se encontram). A direção é eficiente, a sequência é bem ritmada e culmina na explosão, onde vemos muitos planos de detalhes e o salto do soldado em um bom jogo de ritmos (slows e fasts) que lembram bons momentos dos filmes de Guy Ritchie, como o início de "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes".

Mas passada essa cena, a edição passa a ser mais burocrática, criando os climas e ritmos sem interferir muito, apenas mostrando as diferentes situações que vão acontecendo no passar do filme. É eficiente mas não é magistral, repito. Um filme da mesma temática, também atual e que trabalha todos esses recursos de forma muito mais eficiente é na minha opinião o "Redacted" do Brian De Palma (de 2007). Ali sim vemos o uso de diferentes formatos de gravação (de handcams dos soldados à câmeras de segurança dos lugares por onde passam) e ritmos completamente diferentes ao longo do filme (de um possível documentário feito por diretores franceses à uma colagem das imagens gravadas pelos próprios soldados, cada um com suas próprias características). Uma das coisas mais legais dos softwares atuais de edição é justamente que eles permitem essa integração de diferentes mídias (no filme aparece em alguns momentos até páginas da internet com vídeos), coisa difícil de integrar nas antigas moviolas. (Detalhe: "Redacted" não foi sequer indicado ao prêmio de edição e foi completamente ignorado pela academia no ano em que deveria participar).

Qualquer um dos três filmes (Preciosa, Bastardos Inglórios e Distrito 9) sabe usar melhor os recursos de edição na minha opinião (como falado no post anterior) e Avatar consegue propor uma nova forma de usar os efeitos e o processo- e faz isso bem. Bob Murawski e Chris Inis, editores de "Guerra ao Terror" fizeram um bom trabalho mas ganharam o prêmio por estarem no lugar certo na hora certa. O Prêmio de edição do Oscar pareceu mais uma vez não fazer sentido.

Para concluir, fiquem então agora com o videoclip de "Wrong Way" (não confundir com o caminho que o Oscar escolhe para premiar seus indicados) da banda americana Sublime. O quê tem a ver? Foi editado pelo Bob Murawski, um dos editores do filme, segundo me diz o Imdb. No clip vemos, aqui sim, muitos recursos de edição: composições de plano, algumas texturas nas imagens, (d)efeitos especiais... Mal empregados na minha opinião (e de forma bastante gratuita).




Em tempo: Um ponto que me parece curioso dessa edição do Oscar para nós brasileiros é o fato de "Guerra ao Terror" ter sido o grande vencedor justamente na noite em que se homenageava o gênero Terror. Parece irônico, não?

quinta-feira, 4 de março de 2010

O prêmio de melhor edição do Oscar (ou: porque Avatar leva a estatueta)

Neste domingo acontece a tão esperada cerimônia de entrega do Oscar americano. Na categoria edição concorrem: "Guerra ao Terror" dirigido por Kathryn Bigelow, "Bastardos Inglórios" de Tarantino, "Avatar" de James Cameron, "Distrito 9" de Neill Blomkamp e "Preciosa- Uma história de esperança", de Lee Daniels. Todos esses, com exceção do sul-africano Neill Blomkamp, também concorrem ao prêmio de direção (no lugar dele entra Jason Reitman com seu "Amor sem escalas"). E todos estes (e mais alguns) concorrem ao prêmio de melhor filme do ano (que conta agora com a indicação de dez filmes).


De todos, só não vi ainda o "Guerra ao Terror" mas mesmo assim me parece óbvia a previsão do vencedor; o próprio James Cameron subirá para receber o prêmio ao lado dos outros montadores: Stephen E. Rivkin e John Refoua. Além desse prêmio, aposto (não sozinho, obviamente) que Avatar ganhará uma coleção de estatuetas, assim como foi treze anos atrás com seu "Titanic". E isso se deve a duas razões muito simples: Avatar é uma revolução tecnológica; e representa um sucesso de bilheteria em tempos de crise. É assim um filme importante tecnicamente ao mesmo tempo que é importante economicante (para a Indústria do cinema).

Me parece curioso que um filme feito especialmente para o 3D ganhe o Oscar de edição. Explico: no 3D não se pode inovar em muitos aspectos estéticos e ele dita ritmos e cadências muito específicos. Não se pode por razões óbvias ter divisões de telas, cortes muito rápidos de um plano a outro, fusões - na medida do possível-, e a própria mudança de um plano a outro deve ser meticulosamente estudada. Isso porque qualquer um desses recursos pode confundir ainda mais o olho do espectador e deixá-lo realmente mareado. Aqui, no 3D, a montagem é quase que obrigatoriamente invisível; não é preocupante que só afaste o espectador da história, como que afaste dessa "experiência mágica", similar às montanhas-russas e parques de diversão em que o 3D tanto se apóia.

O Oscar que Avatar deve ganhar será por razões puramente técnicas. Cameron criou tantos elementos tecnológicos para fazer sua "Pandora" possível que de certa forma, ele mudou a forma como os editores se relacionavam com o processo de edição e como os mundos real e 3D se integravam (tanto na pós como na própria gravação do filme). Os editores trabalharam com uma quantidade ainda maior de materiais e com uma gama realmente maior de possibilidades. Nessa integração entre o que é filmado e o que é produzido em computação gráfica, os editores podiam escolher takes diferentes de cada ator para um mesmo plano em que eles apareciam juntos, já que o que importava era o áudio e a referência dos pontos gravados no motion capture (ou captura de movimentos), por exemplo. O sistema de câmeras que ele projetou inclusive permitia ao ator ver em tempo real como seria a sua integração ao ambiente 3D. Filmes com computação em geral trabalham a gravação e depois criam tudo em computação gráfica. Aqui, as duas coisas eram feitas quase que simultaneamente.

No site da Wired, uma série de vídeos explica melhor os conceitos por trás dessas tecnologias. Abaixo, a explicação relacionada ao que acabo de dizer, nas palavras dos próprios montadores.



Uma razão a mais para crer que o filme ganhará a estatueta de edição é que se avaliarmos os vencedores das edições passadas do Oscar veremos que em geral edição, direção e melhor filme andam bastante juntos. Isso se dá muitas vezes porque as pessoas não conseguem avaliar direito a edição do filme e acabam achando que se um filme é bom e a direção funciona é porque a edição também é boa. Dificilmente um filme ruim será vencedor dessa categoria, mesmo que seja feito de forma extraordinária. E nisso há o pensamento dominante em Hollywood (e que eu já levantei em outros posts aqui do blog) que a boa edição, premiável no Oscar, deve ser transparente; não deve aparecer ao espectador. Um interessante artigo do New York Times de 2008 explica melhor essa questão - para ver clique aqui.

Este ano me chamou especialmente a atenção a edição do filme "Preciosa". Nele vemos o uso de muitos recursos de edição cobrando sentido narrativo, como a fusão para o mesmo plano em dois momentos diferentes tentando entrar no desespero da protagonista; algumas composições dentro do plano, quando é simulada a fantasia que a protagonista cria em algumas situações; e até essa relação entre realidade e fantasia faz com que a edição assuma características muito diferentes para representar as duas situações. "Bastardos Inglórios" joga com muitos recursos já conhecidos do universo de Tarantino, mas dessa vez muito mais discretos do que em "Death Proof" ou "Kill Bill", por exemplo, em que a provocação e os experimentos iam muito mais longes - e por isso acho mais interessantes (esses filmes nem chegaram a ser indicados para o Oscar em seus anos nessa categoria). "Distrito 9" usa bem o formato de falso documentário e o ritmo em edição ajuda muito a entrar na história e comprar a mentira. Jogando com diferentes formatos, misturando imagens caseiras com imagens filmadas da história e imagens que supostamente seriam da imprensa, ele sabe jogar bem com seus recursos e também é bastante inovador nesse sentido. Senti falta da indicação de "Amor sem escalas" para esse prêmio, já que até o diretor está concorrendo em sua categoria; este é um filme que consegue criar sequências bem interessantes de edição - como logo ao início, cortando diferentes momentos em aeroportos dos protagonistas e suas malas - e tem bom ritmo - o ritmo das conversas entre George Clooney e Vera Farmiga são impagáveis.

Conclusão: entre todos esses, que usam a montagem de uma forma mais visível, e Avatar, que se pretende completamente invisível, o que veremos deve ser uma vez mais a consagração do invisível. Mas dessa vez, por razões completamente compreensíveis.

(Para se aprofundar no tema, recomendo essa reportagem, que também trata do mesmo tema).