quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Parcerias com tiozinhos, para o bem e para o mal. (ou: sobre os melhores e piores de 2011)


Eles lançaram um dos bons álbuns de 2011; fizeram um videoclipe com belas sacadas de edição e alguns vídeos legais para o La Blogothèque (aqui explicados em detalhes); e ainda encerraram o ano fazendo curadoria para a edição natalina do festival inglês ATP (ao lado das bandas Caribou e Les Savy Fav). E mais: os Battles conseguiram desenterrar o Gary "Cars" Numam para uma insólita parceria em uma das poucas faixas cantadas do novo álbum (mas que até acabou funcionando). Em outro belo videoclipe do grupo, vemos um plano-sequência trucado, com planos de câmera bem diferentes e situações meio surreais. Merece portanto nosso destaque (e nosso respeito) como das boas coisas que aconteceu neste 2011.




Nas ideias fracas e sem sentido de 2011 não resta outra a não ser o bizarro encontro entre o agora morto-vivo Lou Reed e uns também desenterrados Metallica. Como explica Lars Ulrich no vídeo abaixo, o projeto nasceu sabe Deus da onde e vai levar eles sabe-se lá para que infernos (e se ele não sabe o como, nós nos perguntamos o porquê). Ainda fica frizado com cara de bobo depois, para melhorar a explicação (aqui sim um acerto do editor do vídeo promocional).



Pior ainda é constatar que nem o genial Darren Aronofsky (diretor do Cisne Negro, que rendeu um Oscar a Natalie Portman esse ano), conseguiu ajudar alguma coisa no primeiro videoclipe oficial do projeto para a suposta melhor música do disco. Se no filme ele acertava, com diferentes sacadas de edição para apoiar uma atuação exemplar e uma história instigante (como falava outro post), aqui ele não gera nem muito ritmo, nem planos bem pensados ou bonitos (e ainda deixa o Lou Reed parecendo mais estranho do que já está). Uma lástima para encerrar o ano.



De qualquer modo, ficam aqui meus votos de felizes festas, comemorações e afins. Que 2012 nos surpreenda positivamente (e deixem os velhinhos músicos envelherecem em paz, por favor).

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

BORN RUFFIANS - Nova Leigh (ou: muitas ideias de edição em um só videoclipe)


O começo tenta ser suave, tons neutros, quase sépia. Não usam cortes secos; ao invés disso, "esfumaçam" os cortes com fusões por cores, integradas aos planos, que mostram os detalhes dos instrumentos e escapam para os fundos.

Quando a música começa a "pegar", bateria entrando mais forte, cortes rápidos começam a aparecer e aí sim um corte seco transporta o espectador para outro plano, outra fotografia, outra ideia: enquanto um adolescente corre pelas ruas, takes da cidade entram em edição bem rápida -acompanhando a batida da bateria- e planos compostos (simulando mosaicos) da banda se misturam a tudo isso.

Do meio pro final vemos o elemento fantástico criado para o videoclipe: o que seria o rosto do adolescente é na verdade um mosaico de olhos, boca e nariz, composto estranhamente e bem integrado à imagem. A banda fala que para isso usou como referência o trabalho do artista Jeremy Olson, mais precisamente sua série de quadros. Lembra para mim (e lembrará claramente para qualquer apreciador de videoclipes) alguns trabalhos do inglês Chris Cunningham, neste caso muito menos perturbador.

O final do videoclipe é uma mistura de todas essas linguagens, acelerando o ritmo da edição até o plano final, onde acontece o que poderia ser encarado como o desfecho da história (e a composição e o efeito 3D estão aqui, mesmo que de forma mais simples, bem empregados).

Isso é o que se vê no videoclipe para a música Nova Leigh, destaque do segundo álbum da banda canadense Born Ruffians.



O videoclipe pode ser considerado um trailer para o trabalho musical da banda e as demais ideias artísticas que eles usam. Não só o tratamento empregado aqui em vídeo dialoga com a capa do disco (há ali o mesmo mosaico com partes do rosto), como a música também apresenta muitas nuances existente nas demais faixas (vai do calmo ao mais ritmado, mudando também de estilo). 

A música no fim é a responsável por dar a unidade a todas essas ideias visuais e o resultado é positivo. O videoclipe pode ser também encarado como um manual de muitas ideias diferentes de edição e, só por isso, já merece o nosso respeito. Ponto para eles.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O meu melhor show do SWU!!! (ou: fazendo mágica com vídeos)

Ok, fui só no domingo. Então Sonic Youth, Primus, Megadeth e Faith no More estão fora da disputa. E o melhor show do dia que eu vi acabou ganhando no WO, já que o Modest Mouse não apareceu por problemas logísticos (segundo a organização). Não falo da louca da Courtney Love, que entre um discurso, um desfile de moda e uma discussão de relacionamento (sem qualquer um dos respectivos) tocou uma música ou outra (tocou?); ou do Duran Duran, do Peter Gabriel ou da briga com o Ultraje a Rigor. O melhor show do dia aconteceu à tarde, ainda claro, no palco menor. O nome da banda? !!! ou Chk Chk Chk (como você achar melhor).


No show em questão o vocalista Nic Offer ofereceu ao público (trocadilho bilingue aqui) um show memorável. Não bastasse ter as melhores sequências de dança já vistas, ainda pulou do palco e se juntou ao público pelo menos umas quatro vezes (o vídeo feito para o show do SXSW mostra também essas duas características dele).

O grupo nova-iorquino faz um som alegre, dançante e despretencioso e já conta com quatro discos no currículo. E o melhor: sabem também fazer videoclipes. E com geniais truques de edição. Como no clipe para "Jamie, My Intentions are Bass" que você vê a seguir.




Truques de edição bem simples e bem compostos dão a graça da coisa. No vídeo de making of (também muito bem editado) eles mostram as ideias e a equipe por trás de tudo isso (educativo, inclusive).




E como se já não bastasse, deixo vocês com Nicasso, the Wonderful, vídeo que mostra que o vocalista, além de cantar, dançar e empolgar públicos de festivais mundo afora, também ataca de mágico (fazendo interessantes truques -aqui, de edição).

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Batalha de bandas

Vídeo bacana, animado de forma bem simples, que mostra uma batalha entre muitas capas de disco (a maioria dos anos 80/90). Não só a ideia é interessante e bem executada como vale para lembrar dessa saudosa época em que as capas de disco eram realmente importantes. Dali vinham, em muitos casos, todo o conceito visual das bandas, que demoravam muito para chegar em países como o nosso (se chegavam) e nem sempre tinham videoclipes de suas músicas (ou não tinham um canal muito apropriado para mostrar eles). Como é o caso dos Dead Kennedys, por exemplo, que através do famoso símbolo (que aparece no vídeo), ilustrou infinitos cadernos no meu colegial, tornando aulas de biologia muito mais prazerosas (ou menos tediantes).

Aí vai: (e vc, acha que faltou algum disco?)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

E hoje é dia de... The Sea and Cake

Expectativa para o show do The Sea and Cake, que logo mais toca no Sesc Pompéia, em São Paulo. Banda de Chicago que faz um som calmo e bem criativo. Já contam com oito álbuns no currículo (existem desde 94), todos muito acima da média. Everybody, álbum de 2007, é certamente um dos meus álbuns prediletos, destes que são bons do início ao fim (coisa rara nos dias de hoje).


Pros que não conhecem, abaixo um excelente videoclipe da banda, para a música Weekend, presente no último álbum, o Car Alarm, de 2008. O ritmo da edição e das imagens acompanha bem o ritmo da música, no geral lento mas também criativo. Imagens bem captadas, que até lembram o Suburbs do Arcade Fire, mas aqui, nada de exércitos, histórias mais complexas ou outras aplicações (como o média metragem que apareceu depois). Apenas o registro desses bonitos momentos da adolescência, ordinários e ao mesmo tempo cheios de significados.



Se os shows do OK GO, do Foals e do Metronomy, vinham depois de videoclipes meio malucos, cheios de ideias visuais e maiores produções, para o de hoje espero apenas um bom show, sem muita produção, mas com um belo conteúdo (como é o caso do videoclipe acima).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O caso Hadji Diouf. (ou: quando uma jogada ruim de futebol vira um criativo exercício de edição)

A base: uma jogada ruim envolvendo um jogador ainda pior (ou: uma trombada meio bizarra envolvendo o jogador senegalês Hadji Diouf, famoso por cuspir em diversos adversários e torcedores -entre eles um menino de 11 anos- além de jogar futebol -na jogada em questão atuava pelos Glasgow Rangers).


O desafio: vendo o potencial divertido da jogada, um internauta limpou quadro a quadro a imagem, deixando só o jogador em questão e desafiou, em um fórum na Internet, as pessoas a bolarem possíveis explicações visuais do que poderia ter acontecido.


O resultado: centenas de gifs animados em que vemos diferentes manipulações dessa imagem, envolvendo em sua maioria referências a videogames e filmes, em um exercício extremamente divertido (e criativo). Abaixo uma compilação de muitos deles.



Mais um bom exemplo de manipulação feita em pós-produção, usando um software muito simples (o Photoshop), em que vemos que mais legal do que produzir, muitas vezes pode ser manipular.

Lembra a manipulação feita em photoshop para os Thundercats (que você viu AQUI). E para mim tem também bastante relação com o tipo de montagem feito no excelente Scott Pilgrim Contra o Mundo, que usava muitos elementos de jogos de videogame interagindo com a ação filmada (ideia já presente nos quadrinhos), como você viu AQUI.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

"Premonição 5": um novo clássico

Existe o cinema de roteirista (cujo auge podemos dizer que foi nos anos 50 e 60, através de figuras como Billy Wilder, por exemplo); existe o cinema de diretor (anos 70 e 80, Truffaut e Godard de um lado, Coppola e Kubrick do outro); e existe o cinema de produtores. Nessa última categoria estão boa parte das séries que não ficam só numa trilogia, os filmes de adolescente, comédias pastelão e comédias românticas, filmes de terror e suspenses baratos, aventuras e filmes de perseguições em geral, animações infantis, filmes do universo HQ, adaptações de videogames e remakes de todo e qualquer filme que tenha feito sucesso no passado e você ainda se lembre (o caso mais ridículo me parece o próximo filme a ser lançado do Homem-Aranha). Ah, e claro: quase todos os filmes em 3D (não se engane, isso acontece desde os anos 50).

Essa pitoresca categoria tem suas famosas características: 
1. visa o lucro (acima de tudo); 
2. Procura sempre criar uma marca, gerando novas possibilidades de continuação (e remake) - e claro, mais lucro; 
3. não precisa ser lá muito inteligente, nem inovar em muitos aspectos, nem ter diretores e roteiristas conhecidos; 
4. Sendo assim, opta pelo roteiro manjado, de estrutura clássica, previsível e com final feliz (que não precisa ser necessariamente coerente; precisa ser FELIZ); 
5. Tem um ritmo específico, edição a serviço da história, invisível, sem divisões de tela (a não ser que alguém fale ao telefone) ou cortes inovadores ou extremamente rápidos (o que também faz parte do 3D, que é para não convulsionar ninguém); 
6. Pode ser de alto (ou altíssimo) orçamento, desde que vise um faturamento maior ainda (afinal, é de produtores que se trata); 
7. Costumam ter caras conhecidas (quase sempre "A" mais conhecida - ou que ganha mais no mercado); 
8. É preferível que estejam atrelados a outras possibilidades mercadológicas (se não vende boneco, dá para um videogame, uma série animada na TV ou mesmo alguns tantos comentários em comunidades do facebook); 
9. Não, festivais nem morto, não ganhará nada mesmo. No máximo uma Comic-con (ainda assim com receio de que receba mais críticas que elogios); 
10. Até porque, o filme deve sair o quanto antes das salas de cinema (a não ser que as pessoas queiram ver o filme mais de uma vez e vire cult) para dar espaço ao que vem depois (e que eles acham até mais legal): os dvds blu-ray com milhões de extras, os canais de tv a cabo, exibições em aviões, pay-per-view, etc.

Tudo isso para falar que hoje (dia 23 de setembro) estreia um (novo) clássico do gênero: Premonição 5. Ah, e em 3D. 


Tem quase tudo isso aí em cima. Com algumas diferenças. A  principal delas: ao contrário da maioria das comédias românticas e filmes de terror (já que é disso que se trata), ele é genial. Eis os motivos:
1. Consegue ser genial mesmo sendo o quinto filme da série e repetindo pela quinta vez a mesma fórmula, com todos os pequenos detalhes criados por ela (à exaustão). 
2. Além disso, o filme não conta com nenhum ator famoso (boa parte dos atores vieram de series televisas e -quem já viu um filme da série vai entender- logicamente não estavam em nenhum Premonição anterior). 
3. É dirigido por um estreante; Steven Quale é um expert de 3D, trabalha faz tempo com James Cameron, mas nem tem uma biografia ou foto no imdb (ainda). 
4. (aqui o melhor) Você já entra na sala de cinema sabendo como ele vai começar, desenvolver e concluir (como em toda comédia romântica) mas aqui, essa é justamente a graça da coisa. Mais do que saber se a mocinha vai morrer ou não no final ou quem é o responsável pelas mortes (tentando atribui algum sentido), aqui você quer saber (como em todos os filmes anteriores da série) COMO eles vão morrer (e muito dessa lógica é puro nonsense). 
5. São de fato as mortes mais elaboradas (e criativas) da história do cinema e você vê ao vivo, sem recriações posteriores em flashbacks feitas pelos legistas (que é a lógica televisiva atual, de séries como CSI ou Dexter). 
6. Para melhorar: é em 3D (sério). É provavelmente o melhor uso já feito para o 3D. Ao invés de ver um alien gigante dançar para uma árvore ou um escandinavo genérico (que pensa ser de outro planeta) jogar um martelo de um lado a outro, juro que prefiro ver uma morte divertida (se isso for possível), pulando sangue, miolos e tripas em direção aos meus óculos (acaba sendo mesmo divertido no final das contas). 



É pura diversão (e nisso nossos amigos produtores merecem todo o crédito). E o melhor: criaram um filme para se ver NO CINEMA. Rindo, gritando e se divertindo junto com todos os outros pirados devoradores de pipoca, que não conseguirão falar nada dessa vez que consiga estragar o seu prazer de ver o filme. Críticos vão dar no máximo duas estrelas (o que é inclusive coerente), mas que não tiram de nenhum modo o prazer de ver o filme. É diversão honesta, que entrega exatamente o que propõe (pelo menos dessa vez).


Um adendo: não sei se para fazer a promoção do filme ou para garantir apenas a diversão deles mesmos, Miles Fisher, um dos principais atores do filme (o que parece o Tom Cruise), publicou no Youtube um vídeo que ele também escreveu (além de atuar). Traz a lógica do filme para o que poderia ser um estúpido episódio de série de escola infantil, com músicas e tudo isso, visual meio anos 80, contando com todo o elenco do filme e mortes também elaboradas e criativas. Aí vai:

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

E hoje é dia de... Foals!

Logo mais toca em São Paulo os Foals. Ninguém tá dando muita bola, já que vão abrir pros Red Hot Chili Peppers, mas é certamente uma das melhores coisas a aparecer na música nos últimos anos. Som inteligente, indie rock dançante bem trabalhado que também vai na onda do math rock (mas sem ser tão cabeçudo quanto os Battles). Tocaram no Planeta Terra faz uns 3 anos e agora voltam com um segundo disco a um espaço bem maior (mas ainda como show de abertura). 


Uma das coisas que acho bacana na banda (e por isso merece destaque nesse blog) é como eles conseguem trazer essa lógica algo matemática da música para os videoclipes, o que acaba sendo representado principalmente através do uso da edição. Cortes bem rápidos acompanhando a música, manipulações da velocidade, misturas de linguagens e um bom uso dos estúdios, seja simplesmente com a banda tocando ou fazendo umas tantas ações esquisitas (como os muitos corações da ótima Cassius). Os videoclipes acabam tendo sempre essa mesma lógica também por terem sido dirigidos pelo tal Dave Ma, que é um antigo amigo da banda (com exceção do primeiro abaixo, Hummer, que foi dirigido por Ollie Evans).









Em tempo: Já que hoje também é dia de Red Hot Chili Peppers, fica aqui também a lembrança DESTE VIDEOCLIPE, certamente um dos mais importantes da história dos videoclipes (e que marcou -e muito- minha adolescência).

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Hoje tem Metronomy


Pros que moram em São Paulo e conseguiram o (concorrido) ingresso, hoje tem show do Metronomy no Beco 203. Som inteligente e simpático, rock alternativo com eletrônico e umas outras tantas coisas na mistura. Projeto do tal Joseph Mount que lançou o terceiro álbum este ano com um integrante a menos e dois a mais (entrou a bela Anna Prior na bateria e Gbenga Adelekan no baixo; Oscar Cash contina na guitarra). Mas certamente a coisa mais genial em relação à banda são os videoclipes. Desses que, assim como faz o OK GO, acabam virando uma perfeita visualização para a música e fique com ela associada para sempre (você escuta a música, lembra deles na hora).

Para mim, de todos, o melhor é ainda o videoclipe para a música A Thing For Me, do segundo álbum (com a antiga formação, portanto). Uma bela brincadeira com a tal da bolinha do Karaokê, com umas tantas sacadas de edição e bons trocadalhos visuais em cima da letra da música. Vejam abaixo.


Todos os outros videoclipes também são bem bons (vai por mim), com destaque para os do último disco: The Bay (também com umas boas ideias de edição); The Look (com uma boa e simples animação em stop-motion); e She Wants (mais um desses que vai de trás para a frente, só que muito bem realizado).

Agora é ver como que tudo isso é feito no show, ao vivo. A expectativa é boa.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A música do Noah and the Whale. Os filmes do Wes Anderson.


Visual dos anos 70. Música com ukelelê e assobios. Letterings em planos com enquadramentos diferentes. Divisões de telas. Figurino retrô - estilo nerd com uniforme do colégio. O videoclipe da música 5 years time da banda inglesa Noah and the Whale tem tudo isso aí, em uma clara homenagem ao universo cinematográfico de Wes Anderson (é certamente a melhor homenagem ao diretor em videoclipes, além de ser também um bom exercício de edição). Veja abaixo.


A homenagem ao Wes Anderson é justificada: o nome Noah and the Whale vem da junção do nome de Noah Baumbach com The Squid and the Whale. Explico: A Lula e a Baleia (nome em português) é um filme alternativo de 2006 escrito e dirigido pelo tal Noah Baumbach, que teve inclusive uma indicação ao Oscar de roteiro. O filme tem as boas atuações de Jeff Daniels (de Débi & Lóide?), Laura Linney (de The Big C), Jesse Eisenberg (de A Rede Social) e Anna Paquin (de True Blood) e o melhor (para os amantes da boa música): trilha sonora da dupla Dean & Britta (ex-Luna e Galaxie 500), que passaram recentemente pelo Sesc Pompéia de São Paulo, em boa apresentação. Como roteirista, Noah também assina O Fantástico Senhor Raposo (2009) e A Vida Marinha de Steve Zissou (2004), dois importantes (e geniais) filmes do Wes Anderson (que produziu o A Lula e a Baleia; os dois são da mesma ceninha, portanto).

A música do videoclipe faz parte do primeiro álbum, o Peaceful, the World Lays Me Down, de 2008, e é o hit que lançou a banda, colocando eles nos 10 mais vendidos das paradas inglesas. De lá para cá, a Laura Marling (que aparece no videoclipe) saiu e terminou o namoro com o cara, lançando uma boa carreira solo; e eles se levaram mais a sério, lançaram videoclipes mais produzidos e ficaram, por conta de tudo disso, mais chatos; como no videoclipe de Life is Life (música que abre o terceiro álbum, o tal Last Night On Earth) em que vemos algo como se fosse o Mika invadir o Suburbs do Arcade Fire com o elenco do Glee (clique AQUI para vê-lo no blog amigo Musicapavê).

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Impressão Digital (dos filmes) - por Domênica Mantel

A trilha sonora do Tubarão do Spielberg. Os créditos de qualquer filme do Woody Allen. A cena clássica do chuveiro de Psicose do Hitchcock. Todas essas características, são marcas registradas dessas obras e do nosso imaginário comum. Mas o designer Frederic Brodbeck levou o conceito além e criou o Cinemetrics, um projeto que sintetiza em forma de representação gráfica a essência dos filmes, formando um tipo de impressão digital para eles. Para isso ele monta uma estrutura em forma de espiral na qual imprime ao mesmo tempo elementos como montagem, cor, intensidade de diálogos, e cria uma forma diferente de comparativo entre obras de um mesmo diretor como Wes Anderson ou entre refilmagens como o “Solaris” de Steven Soderbergh e o original de Andrey Tarkovskiy. Eu sei, parece confuso, mas o video é autoexplicativo e bem bom:


Descobri o rapaz por meio do Brainstorm e ao pesquisar seus trabalhos notei que essa opção por informações altamente concentradas é uma marca em seus projetos. Exemplo disso é o “Movie Core”que traduz filmes em imagens “esculturais” como estas aqui de “Os Excêntricos Tenenbaums”:


Ou este clipe, digamos que minimalista, da música “Buddy Bradley” do Adam Green:

Poder de síntese não é pra qualquer um. Vale a pena conhecer o artista. Bora lá? http://www.fredericbrodbeck.de/


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Essa é a primeira contribuição de Domênica Mantel para o blog. Formada em cinema e roteirista em tempo integral, é também interessada por tudo o que acontece no mundo dos filmes e na televisão. Já destrinchou House (você pode ler textos caprichados sobre TODO e QUALQUER episódio da sétima temporada no blog Sobretv.net) e mantém outras divagações no blog Tudo Fundido (também trocadilheiro, olha só). Vale a visita. Siga também em: @Dodomlyns

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Good (o novo videoclipe dos Dodos)

Saiu um novo videoclipe dos Dodos (minha banda favorita dos últimos 5 anos). Desta vez para a música Good (coerente, inclusive). Videoclipe rápido, minimalista, em preto-e-branco, com poucos elementos visuais. Como é afinal a música dos caras (o que é também coerente); basta ver que a banda são só esses dois caras, uma guitarra e uma bateria bem básica (mas que sabem jogar muito bem com essas duas coisas). E se o efeito da água é manjado e já foi usado por milhões de canais de tv, principalmente como elemento para a videografia, nenhum desses tinha usado com uma música bacana como essa (morte às mesmas trilhas-brancas de todos os canais, inclusive).

Aí vai. Aproveite.


Esse preto-e-branco, poucos elementos gráficos, me lembraram inclusive a arte do (ótimo) Let England Shake, último álbum da PJ Harvey (certamente um dos destaques deste 2011). No lugar de milhões de efeitos e cores, poucos e expressivos elementos como já também entregavam os Dodos no título do último álbum: No Color.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coma, Aprenda e se Movimente (com 3 vídeos)

Não é Comer, Rezar, Amar. Mas quase. EAT, LEARN e MOVE são três vídeos curtos feitos por 3 caras australianos que rodaram o mundo em 44 dias, passando por 11 países - e agora deixam os registros do que viram por aí. Os vídeos tem imagens bem bacanas; ideias de edição e composição interessantes (que mais tem a ver com a captação que fizeram do que com truques de pós-produção); temáticas e ritmos acessíveis a todo mundo (o que certamente encanta desde o adolescente sonhador ao tiozão adorador de mensagens fofas feitas no powerpoint); um sujeito com cara de bom moço; e uma música enjoativa que só (não?).

O primeiro deles é o MOVE, que ilustra bem os diferentes lugares que eles passaram através de boas sacadas de captação e edição.

MOVE from Rick Mereki on Vimeo.


EAT tem também boas ideias gráficas (já usadas em publicidades, devo dizer). Acaba virando meio wannabe de Jamie Oliver, não acham? Já vejo um programa desse cara no Discovery Travel & Living...

EAT from Rick Mereki on Vimeo.


E o terceiro e último vídeo é o LEARN. Tem boas imagens mas não tem lá muitas sacadas de edição; e essa musiquinha já começa a dar nos nervos, ficando ppt demais pro meu gosto.

LEARN from Rick Mereki on Vimeo.


De qualquer modo os vídeos são bons exercícios audiovisuais, foram bem executados e conseguem passar uma mensagem simples para TODO mundo. Tanto é que eles já conseguiram 3 milhões de visualizações em apenas 5 dias (nada mal, não?).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Fazendo imagens com vídeos dos outros (ou: generative video painting)


No melhor estilo corta-e-cola, o artista espanhol Sergio Albiac monta imagens artísticas usando pedaços de vídeos de outras pessoas. Ele montou o que ele mesmo chama de generative video painting ou, em espanhol, pintura video generativa. Circulando por diferentes áreas artísticas e usando o computador como ponto-de-partida, chega a resultados interessantes e bastante inovadores. Na sua página, fala mais sobre como vê o processo de criação:

Meu processo de criação habitual se caracteriza por escrever programas de computador que gerem imagens. Uma vez que a idea se transforme em código de computador, busco e seleciono os resultados visuais que melhor expressem meu tema. Às vezes, essas imagens geradas são o trabalho final e em outras, utilizo os programas como uma espécie de caderno de rascunho para visualizar os conceitos antes de pintar um quadro. Como dou muito valor à liberdade de expressão artística, não me sinto obrigado a me limitar a um único meio ou estilo. Por isso utilizo meios tradicionais ou "new media" para expressar minha visão artística.

O método de pintura gerada por vídeos, que ele criou, consiste em se apropriar de muitos trechos diferentes de vídeos disponíveis no Youtube e combiná-los, como se fossem códigos de computador, para chegar a uma imagem específica. O resultado pode lembrar a fragmentação do cubismo ou o sentido simbólico da pop art.

Veja abaixo as duas imagens criadas até hoje por ele, que usam vídeos genéricos ou sem muita importância (são os vídeos mais populares do Youtube em um dado momento) para criar a imagem da rainha da Inglaterra e da Marilyn Monroe (o que lembra as imagens de Andy Warhol). Para formar a imagem de forma mais clara, abstraindo um pouco mais os detalhes em vídeo, recomendo fechar os olhos, deixando uma pequena fresta, ou afastar bastante do monitor. O exercício de perceber uma coisa ou outra é bem interessante.





Me parece especialmente interessante as possibilidades e o alcance que o experimento pode gerar. Usando pequenos pedaços de diferentes vídeos, você está dando destaque não só à imagem final como também a esses pequenos pedaços, muitas vezes identificáveis. Ele descreve e valoriza a ideia de que ele utiliza o banal para criar algo majestoso (o vídeo genérico do Youtube criando a imagem da Rainha da Inglaterra, por exemplo). Jogando com essas variáveis ele poderia ser ainda mais provocativo (efetivo?) se, por exemplo, usasse vídeos pornôs, imagens de violência, símbolos do punk (que já atacaram a imagem da rainha) ou qualquer coisa do tipo para criar a mesma imagem. Acaba fazendo nos dois casos uma composição mais cromática que poderia ser também política. Mas abre todas essas possibilidades em um exercício de bom resultado, que brinca com edição de vídeo, que é a graça da coisa.

Ps. O blog Musicapavê, amigo deste, também fez um post recentemente falando sobre artes feitas com composições de imagens e objetos, relacionadas ao universo musical. Cita ali também Andy Warhol e mais: Vik Muniz, Mr Brainwash (do genial documentário Exit Through The Gift Shop) e Sandhi Schimmel (clique AQUI para ler). Depois de ver os dois casos, é interessante imaginar como ficariam as imagens mostradas ali, feitas com a lógica de vídeo do Sergio Albiac, não acham?
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Atualizado em 22/07
Perguntei para o Sergio Albiac no Vimeo o que ele pensaria sobre usar um mesmo tipo de vídeo como base para as imagens. Eis a resposta:

"Muito obrigado Ricardo. Tengo control total de los videos que elijo, no tanto de las secuencias que se utilizan. En este caso, los videos populares de internet de un instante dado eran adecuados para el significado que buscaba. Otros videos de origen conllevarían otros significados - como los que apuntas tu. Y sí, sería provocativo, como ha explorado Jonathan Yeo en sus collages, por ejemplo"

Sim, o que eu pensava era mesmo parecido com o trabalho do tal Jonathan Yeo, que eu não conhecia (obrigado, Sergio). A coleção Porn in the USA é exatamente isso. Clique AQUI para ver as obras na página oficial dele. Recomendo!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ida Maria e Cults: Oh my god!

Ida Maria e Cults

Mais um videoclipe para a série "grave qualquer coisa e depois tente criar um videoclipe bacana na edição". É o que faz a norueguesa Ida Maria (que apesar de nova sempre me lembra os nomes de duas avós que fazem parte da minha família) para o videoclipe Oh My God. É só a banda tocando, em um espaço genérico. Mas o videoclipe tem umas tantas sacadas de edição, que fazem a graça da coisa. Saca só.



Oh my god é também o nome de uma música dos Cults, banda novaiorquina que lançou não faz muito tempo seu primeiro álbum e já chama alguma atenção (não confundir com o gótico e oitenteiro The Cult). A música faz parte do Adult Swim Singles Program, que disponibiliza para download uma música por semana de artistas alternativos, patrocinado pela Kia, associado à franquia do Cartoon Network (você pode baixar música e disco no canal deles). O programa também é responsável pelo videoclipe, simples mas interessante (alguns poderiam dizer que é fofo), mas sem lá muitas ideias interessantes em relação à edição.



Outro clipe dos Cults já tem ideias mais interessantes de edição e é feito com uma produção mais elaborada: o vídeo para a música Abducted, primeira faixa do disco, mistura situações surreais, composições simples de imagens e temática próxima ao universo de David Lynch - estradas, personagens e situações estranhas, neblinas, alusões a sonhos, morte, etc.

Lembra também o videoclipe do The Dodos para a música Companions (que você viu AQUI). Confira abaixo.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

O filme do Gainsbourg, Joann Sfar e porquê os cartunistas um dia revolucionarão o cinema

Estreia nesta sexta-feira o filme "Gainsbourg - O Homem que amava as Mulheres", dirigido pelo cartunista Joann Sfar. Antes de tudo uma ressalva: me parece descabido (como sempre acontece) a tradução do título. No lugar de vida heróica colocaram o homem que amava as mulheres, emprestando o título do filme do Truffaut de 1977 para ampliar o apelo sexual que o filme tem, contando que a estratégia pode garantir mais entradas (e mais dinheiro). Sai o herói, entra o mulherengo. Sai o cartunista e músico de sucesso, com carreira brilhante, entra o cara (sortudo) que ficou com duas das mais belas mulheres da história recente: Brigitte Bardot e Jane Birkin.



Pois é com maestria que Joann Sfar, em sua estreia cinematográfica, consegue retratar todos esses lados da mesma pessoa, de forma leve, descontraída, sem se levar muito a sério (o que tem a ver, penso, com o jeito como Gainsbourg encarava todas as coisas). Não é a história oficial e verdadeira de Gainsbourg (como o diretor faz questão de anunciar no filme), senão uma interpretação livre e criativa de algumas das histórias relacionadas a ele, "um dos maiores artistas do século XX, que reinventou a música e o amor", como descreve o (belo) trailer.

Mas onde o filme mais acerta (pode deixar, sem spoilers aqui) é na mistura de linguagens e no uso criativo de muitos elementos narrativos. É como se o Gainsbourg pessoa fosse evoluindo junto ao Gainsbourg personagem, dialogando ação e imaginação durante todo o filme.

Isso acontece porque Sfar é um cara de imagens (é cartunista) e sabe dos potenciais narrativos na hora de contar uma história (em um e outro meio). Vai inclusive pelo caminho inverso da maioria das histórias baseadas em HQs: se a franquia X-Men se esforça mais a cada filme em parecer real e verossímil (o que fica ainda mais claro com esse First Class), usando os efeitos para provar o que só existia na nossa imaginação, no filme de Gainsbourg, efeitos, animação e uso de marionetes estão ali para sugerir, fantasiar e dialogar com a história que está sendo contada, ampliando seu potencial narrativo. Em um texto extremamente interessante de seu blog Sfar comenta seu processo criativo, mostrando como as duas coisas, ilustração e texto, quadrinhos e cinema, estão associados no seu trabalho (e como acaba usando um, mesmo quando está fazendo o outro). Como na frase (o blog está todo em francês e inglês):

"I also like this eternal feedback loop when shooting the movie, when I go back to my water-colours and draw a live actor being an imaginary character. (...) Building a narrative by opposing drawings and actor’s words, by making them dance together, is an inexhaustible source of inspiration."
(Trad.: Eu sempre gosto deste eterno vai-e-vem quando dirijo um filme, quando eu volto para a pintura e desenho um ator sendo um personagem imaginário. (...) Construir uma narrativa opondo desenhos e palavras dos atores, fazendo com que elas dancem ao mesmo tempo, é uma inesgotável fonte de inspiração)



Não por acaso seu novo filme (que estreou agora na França) é o desenvolvimento de uma das suas obras mais famosas. Desenvolvimento, já que: "I hate those stupid ideas like 'a movie based on a comic album'. When you create both yourself, it’s the same work." (trad.: Odeio estas ideias estúpidas como 'um filme baseado numa HQ'. Quando você cria as duas coisas, é o mesmo trabalho.") Le chat du Rabbin (ou o gato do rabino) é uma historia que ele começou em 2002 e que agora chega aos cinemas com o mesmo traço característico. Abaixo o trailer (em francês).



Acho (ou torço para) que um dia o futuro do cinema pode vir também desses caras (me interessa especialmente esses casos); de pessoas que pensem o cinema de forma mais ampla, que misturem linguagens, que joguem com novos elementos, que misturem realidade, imaginação, sonho, etc. de forma que faça sentido (ou que seja ao menos atraente) e/ou fique visualmente interessante. As histórias em quadrinho jogam há muito tempo com algumas dessas ideias (falei mais disso aqui); é ver quando elas podem também chegar ao cinema de forma mais efetiva. O filme do Gainsbourg já é um desses exemplos. Fico imaginando o que Laerte, Angeli, Adão e Gonsales e, na América Latina, Quino, Liniers e Montt, para citar só alguns, poderiam contribuir ao nosso irregular (e às vezes pouco criativo) cinema.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Battles (em uns tantos vídeos geniais)


O Battles é dessas bandas que de tão cabeçudas ficam até difíceis de escutar. Poderia ser classificado como post-rock (já que lembra outras bandas como Explosions in the Sky e Toe) ou como math-rock (o que acho mais adequado na verdade, já que a estrutura do som dos caras parece mesmo matemática). Acaba sendo difícil pegar um CD e escutar de cabo a rabo mas, por outro lado, ver os vídeos para as músicas deles é extremamente interessante. Eles já tinham lançado videoclipes no primeiro álbum, para as músicas Atlas (em que se apresentam em um gigante cubo de vidro) e Tonto (em que jogam bastante com luzes). Agora lançam o segundo álbum e fazem vídeos bem diferentes para promover (seria mais ilustrar) as músicas.

O primeiro, o videoclipe para a música Ice Cream é mais uma das pirações de edição que funciona (e que gostamos). Ali vemos quase tudo: alterações de cor; imagens sobrepostas trucadas (a menina repetida em quadro); jogo de máscaras (a banda recortada misturada com outras ações); muitos takes em meia-fusão (e o take do mergulhador no bikini é sensacional); entre tantos outros. Foi feito pela produtora catalã CANADA (vai entender...) que já tinha feito o videoclipe para o também espanhol El Guincho (e aqui também abusou das mulheres lambendo coisas esquisitas, como você viu aqui). Confira abaixo.



E aqui vemos a ideia da banda sobre a música (que não é nada demais) e um saboroso (já que a música trata de sorvetes) making of do videoclipe, gravado com a Canon 7D.



Aproveitando o bom momento, eles fizeram uma genial apresentação para os franceses do La Blogothèque (certamente a melhor coisa a aparecer na música dos últimos 10 anos) em um lugar incrível: em um dos salões da prefeitura de Paris. Famosos por fazerem sempre vídeos em plano-sequência, uma só câmera, som direto, dessa vez o blog resolveu situá-los em um lugar diferente e gravar com cinco câmeras (o que possibilita umas tantas manipulações em edição). Vejam abaixo as duas músicas gravadas por eles. Bom, não?


segunda-feira, 13 de junho de 2011

tUnE-yArDs e a lógica Corta-e-Cola... na música!

O tUnE-yArDs (pior é que se escreve assim mesmo) é uma das mellhores descobertas musicais dos últimos tempos. O projeto (quase) solo da tal Merrill Garbus, de gênero meio indefinido (o allmusic define como folk lo-fi experimental), faz uma colagem de sons como eu nunca tinha visto. E melhor, faz isso ao vivo.


Nas gravações do disco e nas apresentações ao vivo (como a que você verá abaixo) ela conta com a participação de dois saxofonistas e um baixista (formação incomum, inclusive); e ela se encarrega de todo o resto. Isso quer dizer fazer toda a percussão (em cima de poucos instrumentos), cantar (e no caso dela é algo bem mais complexo - além de meio esquisito) e tocar um ukelelê. Complexo porque a música dela é feita na melhor lógica corta-e-cola: o que é cantado ou tocado uma vez vira um looping (com ajuda de pedaleiras), que vai se somando às outras camadas, criando a interessante mistura dela (que ela mesmo define como cut and paste patchwork). Na música abaixo, aí pro final dela, temos a combinação de umas quatro camadas de looping do vocal, umas três da bateria e mais o vocal e o ukelelê dela mesmo, que aí sim vai fazendo na hora. É quase trazer a lógica da música eletrônica para o que entendemos como tradicional, compondo à medida que toca. Confira.


Depois de outra música da mesma apresentação da rádio ela fala um pouco mais sobre o conceito das montagens. Aqui vai música e entrevista.



E ela já lançou um videoclipe, que também tem suas boas sacadas de edição, para a música Bizness (a primeira aí de cima).



Para mais duas músicas da apresentação da rádio, clique aí: Doorstep e You Yes You. Genial, não?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Broken Social Scene vai de Dexter

Ansioso para ver mais pessoas sendo mutiladas e mortas, assassinatos casuais com toques familiares? Pois para os "órfãos" da série, eis um videoclipe que serve perfeitamente para "matar" a saudade, enquanto a sexta temporada não vem.


O responsável por esta atrocidade é o grupo super-povoado canadense Social Broken Scene (os televisivos acima) e a música se chama Sweetest Kill, do último álbum deles, o Forgiveness Rock Record (do ano passado). O clipe saiu esta semana e mostra a bela Bijou Phillips (que já atuou em filmes como Quase Famosos) envenenando e fazendo picadinho do namorado (e não estou usando metáforas aqui). Veja abaixo.



Matador o videoclipe, não? Já Dexter deve estrear somente no final do ano (já que recomeçaram as gravações não faz muito tempo) e contará com os convidados Edward James Olmos (da série Battlestar Galactica), Colin Hanks (de O.C.) e o rapper Mos Def (do divertido Rebobine, por favor). É esperar para ver.


(Se você é fã de Dexter vai gostar de ler isso AQUI também).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Buraka Som Sistema, truques de montagem e BaBaBaBaBaBaBaBa.

so.. everytime we say Hangover.. some asshole reply's something about the movie? #fuckhangover2#it'snotevenfunny

A frase acima é do twitter dos Buraka Som Sistema, representantes máximo do kuduro português que acabam de lançar um videoclipe para a música Hangover (BaBaBa) (certamente melhor que o filme de mesmo nome que chega aos cinemas brasileiros em sua segunda parte). Confiram.



Não é genial que quase todos os takes estejam manipulados de alguma forma? Truques simples de edição, principalmente na cor e na manipulação da velocidade, que criam um ritmo interessante (coerentes ao ritmo da música) em cima de takes bem simples e próximos ao universo da banda (parece que o videoclipe foi gravado em Angola, de onde eles tiraram a inspiração; e o BaBaBa do refrão). Valeria destacar só por aquele bonito take do mergulho na favela do início (o efeito mais elaborado do videoclipe, talvez, e ainda assim de fácil realização).

Para saber mais sobre o método de composição da banda, conhecer o Buda da Bigodaça e até ver um rápido take da participação do sepultura Igor Cavalera na gravação do álbum, confiram o vídeo abaixo. (Esse já não é tão bem editado e nem muito interessante, mas tem o Buda da Bigodaça, o que mais vocês precisam?)



Ps. Se você ainda assim quiser saber mais sobre a música, recomendo a "interessante" entrevista que o MC Nakobeta, responsável pelo refrão da música, deu em uma rádio angolana. "ENTREVISTADOR: MC Kakobeta, tens algo a dizer?" "MC NAKOBETA: BaBaBaBaBaBA"

quarta-feira, 25 de maio de 2011

The Dodos

Saiu essa semana um videoclipe novo dos Dodos para a música Companions, do excelente álbum lançado esse ano por eles (chamado No Color). Videoclipe com belíssima fotografia, uma idéia meio bizarra e um bom (e rápido) truque de edição, que muda o rumo da "narrativa" e dá a graça da coisa. Confiram o resultado abaixo.


Os Dodos são, na minha opinião, a melhor banda a aparecer nos últimos cinco anos e uma das poucas a passar dignamente no teste do terceiro álbum (nem Strokes conseguiu). O videoclipe acima é o mais "interpretado" e bem produzido deles. Os anteriores são mais manipulações de materiais gravados ao vivo ou em estúdio. O que não deixa de ter sua graça também, como nos videoclipes de Fools e Fables, por exemplo, duas das melhores músicas da banda (uma de cada álbum anterior). O primeiro tem lá suas idéias de edição e o segundo, mesmo gravando em estúdio, consegue gerar um visual interessante com os papéis picados (no final). Valem também para conhecer mais como a banda toca e algumas características do som deles, como o pandeiro que o baterista usa preso ao tênis. Confiram abaixo.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cannes, A Árvore da Vida, montadores e Daniel Rezende


O vencedor da Palma de Ouro em Cannes esse ano foi A Árvore da Vida, último filme de Terrence Malick. O filme americano conta com as participações de Brad Pitt e Sean Penn e é descrito como um drama com elementos surreais e influência da ficção científica (o que pelo visto poderia ser também dito do Melancolia do Lars Von Trier, filme que mais chamou atenção nesta edição do Festival - graças a polêmicas declarações do diretor - e rendeu prêmio de melhor atriz a Kirsten "Mary Jane" Dunst). Confira o trailer do filme abaixo (o de Melancolia você já viu aqui).



O que me chamou atenção em relação ao filme vencedor (e é especialmente importante para este blog) são os nomes que assinam a montagem do filme. São cinco pessoas no total (não consegui descobrir qual o papel de cada um deles): um tal Mark Yoshikawa; Billy Weber, montador de clássicos dos anos 80 como Top Gun e Um Tira da Pesada, e do Além da Linha Vermelha, também do Malick; Hank Corwin, montador do excelente (e obrigatório no tema) Assassinos por Natureza - é curiosamente o primeiro filme que ele montou; Jay Rabinowitz, montador de filmes importantes de dois dos maiores diretores atuais: Jim Jarmusch e Aronofsky - ele montou o mais obrigatório ainda no tema Réquiem para um Sonho; e por último (e mais importante) Daniel Rezende, o mais importante montador brasileiro do momento, que já foi indicado por Cidade de Deus ao Oscar e montou os Tropas de Elite, Diários de Motocicleta e uns tantos outros.

Uma das melhores seleções de montadores de todos os tempos e mais um destaque para Daniel Rezende, nome importante de nossa cinematografia. Rezende também já fez sua incursão à direção com o curta Blackout, que ele mesmo disponibilizou no Vimeo. Curta interessante que conta com a participação de Wagner "Capitão Nascimento" Moura e do diretor de fotografia César Charlone (que também atua). Confiram o curta abaixo na íntegra.



[spoiler] Como todo bom curta de montador estão aí as telas em preto, os planos-sequência e alguns elementos gráficos (os ponteiros do relógio) para dar graça à história. Ágil, atual e bem interessante, não acham?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Vacas (como você nunca viu)

A imagem de uma vaca parada. Uma música eletrônica. After Effects.

É tudo o que você precisa para você fazer um vídeo interessante como esse:


"Animal", não? E pros que pensam em fazer algo assim, já aviso: não é "teta".

Cloud Nothings e o Músicapavê

No último post falava sobre música e dava a dica do Músicapavê, blog bacana de música e vídeo, amigo deste em que você se encontra. Escrevi para eles um post sobre os Cloud Nothings, banda nova de rock alternativo, que eu acho bem bacana. Agora esses caras começam a mostrar a cara e fazem isso (como toda boa banda) através de vários videoclipes. Em alguns eles acertam mais, em outros menos, mas a música é sempre bacana. E em um tantos eles conseguem provar umas novas linguagens, testar uns efeitos diferentes, buscar visuais interessantes (alguns meio oitenteiros). Por isso é motivo de destaque nos dois blogs.


Os Cloud Nothings são esses nerds aí acima. Clique AQUI para conhecer melhor a banda e ver os diversos videoclipes feitos por eles até o momento. Vale a visita.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Garotas Suecas e Delafe y las Flores Azules. São Paulo e Barcelona.

Aí pra um ano e meio atrás troquei Barcelona por São Paulo, depois de dois anos fora. Troquei (para o bem e para o mal) o Eixample e sua Sagrada Família pela Vila Maladena e seus Filiais. Saí do Rec e do Orfanato para cair na Tropa de Elite 2 e no Lula, o Filho do Brasil. Ou, em termos musicais, saí do Delafe y las Flores Azules para cair nas Garotas Suecas (sem duplo sentido aqui).

Para efeitos de ilustração, abaixo um dos últimos videoclipes dos Garotas Suecas, gravado bem no coração desta atual (para mim) Vila Madalena, no famoso Beco do Batman, em um plano-sequência com manipulações em pós de velocidade (o que gera aqui um efeito interessante).



E se juntar os amigos e fazer um plano-sequência trucado (amigo também do baixo orçamento) é o tema da vez, conheçam os Delafe y las Flores Azules, uma das bandas mais interessantes da cidade condal (também visualmente), que já gravaram até com o Blogoteque. O final do videoclipe é o grande barato da coisa, lembrando o genial curta-metragem francês O Balão Vermelho do Lamorisse (ou mais recentemente o Up da Pixar).



Outro videoclipe da banda que também usa da edição para fazer algo interessante é o Espiritu Santo, música mais calminha que usa o corte para mudar a ação e a pessoa (e aqui também entram os muitos amigos da banda) e no final, apela pro crowdsource para multiplicar o efeito (lembrando o famoso Where the Hell is Matt? de uns tantos anos atrás).



No final, as duas bandas podem ser resumidas como futuras apostas das duas cidades (e dos dois países?), visualmente próximas e com algumas ideias interessantes nos videoclipes. Mais interessantes até que as próprias músicas, meio "poéticas" ou caetânicas demais pro meu gosto.

Este post é também uma homenagem ao finado Link to Think, blog que acompanhei e colaborei algumas tantas vezes e que fazia muito bem esse diálogo entre as duas cidades.

E se esse blog pretende colocar o audiovisual em palavras, outro que dialoga com este tema e que eu recomendo é o Músicapavê (ainda por cima trocadilheiro), que mostra áudio para ser visto (e usa como base para isso também os videoclipes, por tantas vezes objeto deste blog). Tá dada a dica.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um novo Lars Von Trier enquanto o mundo não acaba

Pare o que está fazendo.

Está no ar o trailer para o novo filme do Lars Von Trier, o Melancholia. Desta vez com uma seleção de bons atores, como Kirsten Dunst (Homem-Aranha), Charllote Gainsbourg (Anticristo), Kiefer Sutherland (24 Horas), Charlotte Rampling (Swimming Pool), John Hurt (Harry Potter) e os dois Skarsgard (como coloca uma bola em cima do "a"?), Stellan-pai-(Thor) e Alexander -filho- (True Blood). E claro, pode ficar tranquilo (se você é fã dos filmes do Lars, como eu), o Udo Kier continua no elenco (já o mesmo não pode ser dito do Jean-Marc Barr).


Pela definição, é algo entre o Festa de Família e o 2012 (se é que isso não poderia caracterizar quase todo filme). Nas palavras dele: "a beautiful movie about the end of the world" (ou: um bonito filme sobre o fim do mundo).

Confiram o resultado abaixo:


Agora, é torcer para estrear logo nas nossas salas.

Ps. sempre que colocam os atores com algum exemplo de filme já feito por eles, como eu fiz aqui, acabo formando uma imagem conjunta de todos eles. Nesse caso, não sei o que daria entre o cruzamento do Thor, do Homem-Aranha e do Harry Potter com o Swimming Pool e o Anticristo. Ficaria algo bem estranho. (Mas provavelmente nem perto de ser tão estranho -ou tão bacana-como o filme que o Lars Von Trier deve entregar desta vez. Vai por mim.)

terça-feira, 29 de março de 2011

Conheçam JT, o macaco-editor

"Até um macaco conseguiria editar este filme?"

Conseguir, agora sabemos que sim (o que pode ser uma ótima notícia, inclusive). Eis abaixo um "criativo" vídeo de surf editado por JT, o chipamzé. Segundo a descrição do vídeo, eles "deram os controles do Final Cut Pro para o animal e ele rapidamente dominou o processo de edição. JT prefere cortes rápidos e som ambiente".


O que eles não comentam é quanto tempo JT demorou para exportar o vídeo e fazer o upload para o Youtube. Como toda pessoa sabe, o trabalho de um editor de vídeo é 10% a edição em si e 90% brigas com codecs, renders, definição de formatos de captação vs. formatos de edição, problemas com o final cut que cai toda hora e coisas do tipo.

Em muitos casos desse nosso monótono cinema e de nossa velha e pobre televisão, acho que podíamos deixar JT editando e chamar um editor só depois, para subir para o Youtube ou passar para a fita. Fica a dica.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os geniais efeitos visuais de Cisne Negro (contém spoilers, já aviso)

Você não se perguntou durante o Cisne Negro onde infernos estariam as câmeras (e todo mundo que trabalha ao lado dela) naqueles muitos planos no salão de ensaio, cheio de espelhos? Ou não se perguntou se era mesmo a Natalie Portman que dançava aquilo tudo? Ou mesmo, como eles faziam todos aqueles efeitos da "transformação", que conseguiam ser ao mesmo tempo artísticos e realistas?

Pois aí está um belo vídeo de making of para nos ajudar.



O legal do vídeo é que mostra o truque cinematográfico ao mesmo tempo que mostra como a mensagem foi ampliada por essas muitas camadas feitas em pós-produção (como no caso do belíssimo plano da tatuagem de asa, por exemplo). Como falado no post anterior sobre a série In Treatment, esse tipo de coisa (como imaginar onde estaria a câmera em muitos planos, por exemplo) pode não ser imaginado ou mesmo cogitado por um espectador comum, mas serve para ampliar a reflexão sobre as imagens e gerar novas possibilidades narrativas. Ainda mais no caso do Cisne Negro, em que a história da bailarina e a interação com o instrutor de ballet (vivido pelo genial Vincent Cassel) apontam claramente para a relação da atriz com a personagem (que em alguns casos pode consumir demais a pessoa que interpreta, que começa a confundir os "papéis" - como no caso Heath Ledger/Coringa, imagino); e na relação própria entre a atriz e o diretor, que às vezes joga com o psicológico da atriz para alcançar o resultado desejado.

A pós-produção e montagem ajudaram no caso do filme a expandir essas possibilidades, jogando novas "camadas" de profundidade em uma já profunda história.

Ps. pros que se interessarem em ampliar o conhecimento sobre o filme, recomendo ver no Youtube uma longa entrevista (de quase UMA HORA de duração) com o diretor de fotografia Matthew Libatique, o montador Andrew Weisblum e o diretor, Darren Aronofsky, falando de forma quase informal sobre os diferentes aspectos do filme (clique aqui se quiser ver). Há outra com Natalie Portman, de pouco mais de meia hora que é também bem interessante (ela responde a pergunta "Você chegou a discutir com o Aronofsky se você realmente morre no filme?", já aviso) - para ver, clique aqui.

Ps2. Também falei do Cisne Negro em outro post, mas rapidamente, comentando os indicados ao prêmio de montagem do Oscar.
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Atualizado em 29/03:
Uma ressalva: o vídeo que você vê acima não é o mesmo que eu tinha postado originalmente. O vídeo que eu tinha colocado acabou sendo tirado do ar e as únicas opções encontradas na Internet hoje em dia são vídeos oficiais da Fox. Há uma explicação para isso: enquanto Benjamin Millepie, marido de Natalie Potman e bailarino no filme, diz que a participação dela foi de pelo menos 85% nas cenas de dança, Sarah Lane, a dublê de corpo, fala que é algo como 5% (essas declarações vieram depois da premiação do Oscar, obviamente). No vídeo original dava para ver a troca do rosto de uma pela outra em pós-produção (daí porque eu falo no início, inclusive, sobre ela dançar ou não aquilo tudo). O vídeo atual continua interessante, mas substitui as cenas de dança por outras cenas com os jogos de espelho, em que se mostra o terror da personagem (efeitos para mostrar o irreal, o psicológico) mas não a dança e outros planos mais simples (aqui reais, em teoria). Aqui há mais informações sobre o caso, para quem quiser (em inglês).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando o roteiro, a direção e a montagem são executados com maestria. (ou: as idéias por trás da primeira temporada de In Treatment)


Me deram alta. Hoje finalmente acabei de ver a primeira temporada da série In Treatment (aqui Em Terapia), produção da HBO (atualmente em cartaz em sua terceira temporada). Se você não conhece eis aqui uma rápida publicidade desta primeira temporada da série:



E se você não sabia, a série é uma adaptação de uma produção israelense feita três anos antes com basicamente os mesmos personagens e conflitos desta primeira temporada americana. Aqui a apresentação (mais detalhada que a anterior) da série original:



Algumas idéias que me fizeram ficar viciado na série:
1. O formato é genial. Episódios curtos, de menos de 30 minutos, que vão ao ar de segunda a sexta, cada um deles com o paciente do dia (o de sexta é para supervisão, ou seja, ele é o paciente). Isso não só é um fator viciante como dá um dinamismo bem grande à série; muitas vezes você se pega querendo pular uma semana para descobrir logo o que acontece com o personagem (o que eu na verdade não recomendo).

2. Há ali todo tipo de conflito: amoroso, profissional, familiar, etc. Cada hora você acha que tem mais a ver com um paciente (e um tipo de conflito) e isso costuma variar bastante ao longo da temporada.

3. O roteiro é primoroso. Diálogos objetivos, que conseguem prender e instigar o espectador ao mesmo tempo que garantem bom ritmo e soam naturais em quase todo o tempo (pelo menos para mim), tendo bom desenvolvimento ao longo da temporada.

4. Ao ver o filme Inception/A Origem, de Christopher Nolan, me perguntei se aquilo não poderia ser mais denso e mais perturbador (sendo também mais efetivo), entrando mais na cabeça (aqui também literalmente) dos protagonistas e expondo os conflitos, sem tantas explosões e tiros para tudo que é lado. Algo que seria no final das contas mais complexo e feito, possivelmente, de forma mais barata, já que você não cria tantas situações mirabolantes. Seria algo como o eXistenZ do Cronenberg, só que não tão viajado ou bizarro.

Pois bem, o In Treatment entra nessa categoria. Por que não gastar a meia hora do episódio focando apenas na interação entre as duas pessoas, em um ambiente fixo, sem maiores ações, flashbacks ou representações fictícias do que está sendo falado? Essa era a proposta da série e me parece extremamente efetiva. É dado ao espectador o poder da imaginação (assim como trabalha o psicanalista diariamente) e essa é a graça da coisa.

5. (e aqui chegamos ao tema central deste blog) A série é um ótimo exercício de direção e principalmente, de montagem. Ao trabalhar basicamente com diálogos, um único ambiente, sem maiores apoios cenográficos, com apenas dois atores, sentados, falando por meia hora, é preciso representar os movimentos que, em um processo psicanalítico, representam coisas -falam tanto quanto o diálogo- além de dar bom ritmo e prender o espectador.

Há dois pontos que me parecem especialmente representativos dessa idéia e que ilustram possivelmente as duas coisas mais complicadas do trabalho de montagem:

a. Ação/reação. Um exemplo claro disso tínhamos também nos filmes (também só de diálogos) Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol, dirigidos por Richard Linklater. Ao colocar duas pessoas também conversando durante toda a duração do filme, eles tinham que, a todo tempo, mostrar a pessoa que fala (e que sugere algo) e a que que reage (aceitando ou rechaçando algo). Mais que isso, eles tinham que representar em gestos o que não é dito: um olhar que provoca; um não que quer dizer sim; uma levantada de sobrancelha desconfiada. E aí está boa parte do trabalho do montador, sabendo quando mostrar a ação e quando sugerir a reação, durante um diálogo, optando cada hora por um plano diferente. A mesma preocupação existe na série.

b. Quebra de eixo/direção do olhar. Eis uma das coisas mais dificilmente explicadas em aulas de direção e que o montador tem que estar a toda hora atento durante o processo. Ao inverter o eixo da câmera, colocando ela numa posição oposta ao sentido em que estava (em relação à ação), mudam-se as direções de olhar e sentido da ação, confundindo o espectador. O que em geral se atém para não parecer um erro, na série é usado com sentido narrativo. Ao trocar de uma hora para outra o eixo da câmera, passando para o outro lado da ação (do ombro esquerdo para o direito do analista, por exemplo), os olhares dos personagens trocam de direção, fazendo com que estes assumam posturas diferentes. O que antes estava em uma posição de defesa (e olhava para a esquerda da tela em boa parte das vezes) passa a assumir posição de ataque, olhando para o lado oposto. É um fator desconhecido para boa parte do público (que não percebe como tal) mas que certamente acaba influenciado por este tipo de linguagem (ou ao menos temos a tendência a pensar que sim). Dá de qualquer forma uma intenção para cada plano (e aqui valoriza o trabalho do diretor), além de um ritmo e uma dinâmica muito interessante (e o do montador também). Fica muito mais legal analisar o diálogo quando você está ciente dessas coisas; e pode interpretar que papel cada personagem está desempenhando nos diferentes momentos da série.

Tá dada a dica. (se quiser, clique aqui para ver em streaming o primeiro episódio - e ficar viciado para sempre).

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O oscar de montagem (ou: entre Inception e Social Network fico com Scott Pilgrim)

Contrariando a lógica de que o filme que vence o Oscar de montagem também ganha direção e melhor filme (lógica que prevaleceu ano passado com o Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow, como falamos aqui), este ano tivemos A Rede Social premiado nesta categoria, enquanto os outros dois prêmios ficavam para O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Outra coisa que também não aconteceu foi montagem ser premiada junto com categorias mais técnicas como as relacionados a som e efeitos especiais (aqui deu A Origem de Christopher Nolan -que não foi indicado como diretor, inclusive).


Logicamente os montadores Kirk Baxter e Angus Wall têm seus méritos, já que conseguiram dar bom ritmo e tornar bastante interessante um filme feito basicamente em cima de diálogos. Confira abaixo uma entrevista feita com os dois no momento seguinte à premiação. Aí eles comentam um pouco sobre essa dificuldade de trabalhar com muito texto; sobre o trabalho com David Fincher; e lamentam o diretor não ter levado no momento seguinte ao deles o prêmio também.



Mas se no post do ano anterior eu lembrava da não indicação de Redacted, de Brian de Palma para a premiação nesta categoria (o que já me parecia bastante estranho), este ano acho revoltante não termos Scott Pilgrim contra o Mundo, de Edgar Wright disputando a estatueta. Um filme atual e inovador, com uma quantidade assustadora de novas idéias por minuto, bem dirigido e bem adaptado do universo da HQ, com ritmo impressionante, apoiado em muitos efeitos e elementos gráficos diferentes. Um filme difícil de fazer e que se relaciona, na minha opinião, muito melhor com esse universo virtual/eletrônico atual, de tantas músicas em mp3, jogos de video game, televisão e Youtube (e faz isso através de um uso animal da montagem). Universo este que deveria também estar representado em A Rede Social, já que se relaciona com a história do Facebook, meio que junta todas essas mídias. A Rede Social usa da rapidez e agilidade da interação das redes sociais e é um filme inteligente e bem estruturado, mas é um filme de texto, de diálogo, careta portanto em certo sentido.

Se você acha que estou forçando a barra e a coisa não é bem nestes termos, veja abaixo então um extenso vídeo sobre os diferentes efeitos presentes no Scott Pilgrim, comentados pelo diretor de arte Nigel Churcher. (No Youtube também tem um making of de quase 50 minutos com detalhes do filme, para quem quiser se aprofundar mais).



Com isso, acho que a premiação do Oscar que vimos ontem ficou ainda mas sem graça, já que nela vimos poucos filmes competirem entre si em quase todas as categorias, sendo que muitas delas a vitória já era dada como certa por um deles muito antes de ser anunciada (como foi no caso de Toy Story 3). Mais competidores dariam mais dinamismo para a premiação, além de mostrar aos telespectadores que Hollywood não vai tão mal das pernas assim.

Em tempo: cabe aqui algumas ressalvas. Confesso que não vi ainda o 127 horas de Danny Boyle, diretor este que soube jogar incrivelmente com a montagem em diferentes filmes; seja com a lógica televisiva/bollywood em Quem quer ser um milionário?; seja com o irregular A Praia, em que víamos uma viagem de Leonardo DiCaprio inspirada também nos jogos de video game; ou no inquestionável Trainspotting. Muitos já me falaram que 127 horas cumpre o esperado.
Outra coisa é que também não mencionei Aronofsky e seu excelente Cisne Negro, filme magistral de outro diretor que sabe usar a montagem como poucos -Réquiem para um sonho e Pi são exemplos claros disso- e Cisne Negro não foge à regra. De um modo ou outro podemos dizer que a disputa estava mesmo acirrada. Se por um lado faltou Scott Pilgrim, por outro sobrou talento em poucos (e grandes) nomes.